Família Hoare, Inglaterra – Parte Primeira
C. Hoare & Co., fundação 1672 d.C., Private Bank – Londres, Inglaterra
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Na Inglaterra há dinheiro antigo, há dinheiro muito antigo e há C. Hoare & Co. em 37 Fleet Street, Londres, o mais antigo Private Bank do mundo sob controle e gestão da família Hoare há 12 gerações, desde sua fundação em 1672. C. Hoare & Co., ou Hoares, como é também conhecido, consolidou a elevada reputação pelo atendimento pessoal dos próprios sócios a cada cliente, acima de £3 milhões em depósito inicial e £5 milhões em ativos.

Na 12ª geração “ser bons banqueiros e bons cidadãos”, a missão institucional inalterada desde a fundação, é a pedra angular da Golden Bottle Trust e ancora as estratégias de responsabilidade social do banco. O fundo, financiado por 10% dos lucros anuais, é voltado a projetos de impacto sociocultural em arte, educação, saúde e sustentabilidade ambiental. Na outra ponta o Master Charitable Trust – pioneiro no Reino Unido – está concebido como veículo para os clientes do Hoares disporem de uma solução estruturada, e fiscalmente eficiente, para gerir suas doações à caridade.
Os primórdios da atividade bancária remontam a 3200 a.C., partindo dos registros de empréstimos de dinheiro-grão de mercadores a agricultores e comerciantes para transportar mercadorias entre cidades. Ainda que rudimentar, o sistema era desenvolvido o suficiente para justificar, por volta de 1750 a.C., sua regulamentação no Código de Hamurabi. Escrito em acadio – língua semítica extinta – o monolito de basalto reúne o primeiro conjunto de leis conhecido para a humanidade, na Mesopotâmia. Durante o Império Romano os templos sediavam instituições que recebiam valores, cambiavam moedas e concediam empréstimos, atividades que aparecem também em achados arqueológicos da China e da Índia antigas.

Na Idade Média, a partir do norte da Itália o sistema espalhou-se pelo Sacro Império Romano-Germânico, e desenvolveu-se ao compasso de movimentos históricos como as Cruzadas, que necessitavam movimentar altas somas de dinheiro para transferências entre cidades; os Cavaleiros Templários, que coletavam dízimo em moeda local e emitiam notas resgatáveis em qualquer de seus castelos; a Reforma Protestante e a reinterpretação de Calvino contra a condenação da usura, que legitimaram o lucro financeiro; e ainda a Revolução Industrial, que demandava crédito para expansão do comércio internacional.
Em Londres, após dissolução dos mosteiros por Henrique VIII, os ourives passaram a guardar o ouro de comerciantes ao custo de uma taxa, emitindo certificados da pureza e quantidade do metal. Eram certificados não negociáveis e apenas o depositante original podia retirar o metal, assim, acumulavam grandes reservas de ouro e gradualmente começaram a emprestá-lo em nome dos depositantes, originando um novo tipo de dinheiro: a dívida do ourives em vez de moedas de ouro.

Nesse contexto, em 1665, Richard Hoare, filho de um negociante de cavalos, tornou-se aprendiz de ourives e após sete anos ascendeu a membro da Venerável Companhia dos Ourives de Londres, com direito a exercer a profissão. Não havia então numeração nas ruas, sendo os negócios identificados com placas de metal, e Hoare iniciou sua atividade em 5/07/1672 numa rua em Cheapside, sob a placa Golden Bottle, vindo a comprar o negócio de seu antigo mestre no ano seguinte. Alí prosperou e em 1690, já ourives-banqueiro, transferiu as instalações para Fleet Street levando consigo a placa.
Nomeado cavaleiro em 1702, foi prefeito e membro do Parlamento, conquistando uma clientela de aristocratas e figuras da elite cultural. Envolveu nos negócios seus 17 filhos, incentivando-os a desenvolver suas habilidades, qualificar-se para gerir os próprios recursos e cuidar dos negócios entre si. No entanto, seu filho mais velho não correspondeu às expectativas e contrariando as normas da época, não hesitou em excluir o primogênito da sociedade, por considerá-lo inapto, passando o sólido legado patrimonial a Henry e Benjamin, segundo filho e filho mais novo, que o sucederam após sua morte.

As gerações seguintes mantiveram a liderança pautada em competências e gestão rigorosa, consolidando a identidade constitucional alinhada à prevalência dos valores sobre os vínculos familiares. No séc. XVIII, Henry – neto do fundador – tornou-se sócio sênior aos 19 anos. Visionário de personalidade marcante, comandou o banco por 60 anos, inseriu várias inovações e transformou Stourhead – propriedade rural da família em Wiltshire – em um dos mais célebres jardins paisagísticos do mundo, hoje sob tutela de The National Trust.
A ele sucedeu a geração que conduziu o banco firmemente por 50 anos, triplicando o volume de depósitos, apesar das instabilidades das guerras Americana e Continental. Depois, em 1829, com Charles Hoare foi construído o atual edifício em 37 Fleet Street – o mesmo endereço de 1690 – e quando o Bank Charter de 1844 regularizou o sistema bancário inglês, levando ao desaparecimento muitos dos 4.000 bancos existentes, o Hoares seguiu inabalável liderado por Charles Hoare. É ele o “C” de C. Hoare & Co.

Todavia, a esse céu de brigadeiro chegou uma borrasca. A confluência de má gestão, especulações fracassadas, paixão por cavalos e um escandaloso caso passional resultou em dívidas imensas e perdas reputacionais, enquanto os sócios devastavam propriedades rurais e coleções de arte fabulosas. Em uma única geração – a sétima – a família perdeu a maior parte da riqueza amealhada em 200 anos, os sócios sêniores foram afastados e o banco beirava a ruína.
Coube à oitava geração reconstruir, a partir de 1890, a solidez institucional transformando as lições extraídas em reforma estrutural, em critérios de seleção de sócios, de governança e de preservação de legado. A credibilidade foi restaurada, contudo, na década de 1920 quando bancos privados eram comprados a rodo pelos maiores, o Hoares tornara-se desinteressante e foi o único independente que sobreviveu. Por mais 70 anos o volume de depósitos estagnou e partindo de uma base muito aquém do que fora no passado, os Hoares continuaram a trabalhar arduamente geração após geração.
Sorrateiramente a crise de 2007-2008 chegou aos mercados engolfando titãs, e à procura por um banqueiro honesto com balanço patrimonial limpo, os dinheiros antigos jorraram no Hoares. Os depósitos aumentaram 21% em 2008, seguidos de 16% em 2009 e continuaram. Hoje, o Hoares tem cerca de 15.000 clientes, incluindo muitas das famílias maiores proprietárias de terras no Reino Unido. Constituído como sociedade ilimitada, com capital social £398 milhões e gerindo £5,54 bilhões de depósitos, o banco opera sob gestão conservadora em sua sede centenária, com a Golden Bottle pendurada na porta.
O potencial cliente, sempre indicado por outro cliente ou consultores profissionais, é recebido por ao menos um dos sócios numa sala voltada a um jardim interno. Conversam. Aprovada sua admissão é designado um gestor que irá conhecer a ele, à sua família e as suas especificidades bancárias. Muitos são rejeitados? “Milhares.”, diz Alexander Hoare, Sócio Sênior e CEO da 11ª geração, resumindo que “…nada de potentados. Sabemos qual nicho nos atende e ele não envolve pessoas com seus próprios exércitos particulares.”
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Quais lições nos oferece a Dinastia Hoare sobre:
1) sustentabilidade da família, negócios e relacionamento com stakeholders?
2) perpetuação de valores fundamentais para o legado patrimonial e familiar?
3) intersecção da governança com a propriedade, gestão e família?

Convidamos você a nos acompanhar nessas e outras lições sobre sucessão, governança e filantropia dessa Família Inspiradora, na Parte Segunda de sua história, que a MESA publicará em 2 de julho próximo.
Fontes
Livros
- Hutchings, Victoria – Messrs Hoare Bankers: A history of the Hoare banking dynasty (Constable 2005)
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
Artigos
- How C. Hoare & Co. became the oldest family-owned bank in the world – por Alec Marsh para Spear’s Magazine, fevereiro 2022.
Sites
- www.hoaresbank.co.uk
- www.henokiens.com
- www.imd.org
- www.ft.com
- www.wikipedia.org
- www.britannica.com
- www.euromenaenergy.com
- www.thebanker.com
- www.russellsimpson.co.uk
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