Família Van Eeghen – Holanda
Van Eeghen Functional Ingredients, fundação 1662 d.C., nutrição – Amsterdã, Holanda
🌐 www.vaneeghen.com

Em Amsterdã, na Holanda, uma das mais antigas empresas familiares em funcionamento no mundo é parceira estratégica de grandes multinacionais nos mercados de nutrição infantil, clínica e esportiva. De modesta empresa negociante de lã, vinho e especiarias, evoluiu em mercados de café e cacau, bancos, consórcio marítimo, apoio à criação dos EUA, e atualmente opera como player global em saúde e nutrição.
Hoje comandada pela 15ª geração, a Van Eeghen Functional Ingredients continua uma empresa 100% familiar, com seus valores – cuidado, colaboração, confiabilidade e empoderamento – sustentando seus princípios declarados e servindo de base para tomar decisões e estabelecer parcerias.
Um legado de mais de 360 anos é o registro histórico dos erros e acertos de uma empresa familiar, que teve início durante o florescimento comercial de Amsterdã no séc. XVII.
O áudio deste vídeo está em inglês. No player do YouTube, clique em ⚙️, ative as legendas automáticas e depois selecione Traduzir automaticamente → Português.
Em 1602, marcando o início da Era de Ouro da Holanda, foi criada a Companhia Holandesa das Índias Orientais com monopólio sobre rotas comerciais, poder para guerrear, colonizar e emitir moeda, precursora das modernas multinacionais que, em 1621, inspirou a criação da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, como instrumento da expansão holandesa nas Américas.

Cidades como Amsterdã, Haarlem e Middelburg eram centros dessa dinâmica mercantilista, notáveis pela indústria têxtil, cervejeira e comércio de tulipas que impulsionavam a economia. Esse ambiente vibrante forjou uma cultura empresarial de inovação e internacionalização, que atraiu forte fluxo de imigrantes flamengos.
Em 1633, no norte da atual Bélgica, em Aardenburg, Flandres, um huguenote chamado Christiaen Van Eeghen comercializava tecidos, um pequeno negócio que deixou ao filho Jacob. Ele mudou-se para Kortmark e dali fugiu da perseguição religiosa para se estabelecer em Amsterdã em 1662. Com sua importação e comércio de tecidos, especiarias e sal, Jacob ousou trilhar um caminho independente do monopólio das Índias Orientais, concentrando-se em Europa, Mediterrâneo e Báltico, regiões negligenciadas pela onipotente Companhia das Índias Orientais. Assim prosperou e expandiu a atividade a consórcios de navios e comércio com as Américas.
Em 1705, seu filho Christiaen, então à frente do negócio, faleceu deixando filhos pequenos. A viúva Suzanna Blok tomou o leme e com firmeza conduziu os negócios até o primogênito estar preparado e sucedê-la. Ele morreu muito jovem e, mais uma vez, Suzanna assumiu o comando da empresa. Foi ela a primeira mulher no mundo a dirigir uma empresa familiar, e o fez por 50 anos tornando-se uma magnata e preparando a sucessão do neto, Jan Van Eeghen. No séc. XVIII transformações de toda ordem reconfiguravam a Europa, mas os holandeses não foram muito envolvidos e seu setor de seguros mostrava-se lucrativo. Nesse cenário, Jan foi um dos principais subscritores da Bolsa de Valores de Amsterdã, alcançando uma dimensão empresarial que em sua idade outros jamais conseguiriam. Entretanto, o destino testava a têmpera Van Eeghen, e Jan morreu aos 31 anos, o que exigiu da viúva Cornelia Clerq, jovem mãe de quatro filhos, assumir o controle da empresa e atravessar duas graves crises de crédito da Bolsa de Amsterdã (1763 e 1772–73).
A desaceleração do comércio levou os irmãos Christiaen e Pieter Van Eeghen a estabelecer, em 1776, uma divisão bancária e incorporar a rede Juilion & Rulffs dois anos depois, formalizando a sociedade Pieter & Christiaen Van Eeghen e com Cornelia contribuindo com seus ativos para ampliar consistentemente o portfólio. Também se diversificaram geograficamente para reduzir custos, e reunindo outros 12 investidores, em 1793, Pieter liderou a Holland Land Company na compra de 3,45 milhões de acres, não urbanizados, em Nova York e Pensilvânia. Em vez de lucro rápido, adotou visão de longo prazo financiando estradas e canais para atrair colonos europeus.

No início do séc. XIX, a ocupação francesa estrangulava a economia e com o comércio estagnado, os Van Eeghen viam seus ativos reduzidos a pouco mais de 25% do que eram na pré-guerra. Eram dos poucos sobreviventes, então focaram na atividade bancária e fundiram-se com a Oyens originando o banco Oyens & Van Eeghen. Bem-sucedidos e percebendo um vácuo existente na exportação de têxteis para o Oriente, foram os primeiros financiadores do mercado de algodão holandês, enquanto paralelamente alavancavam a industrialização da Holanda, investindo em teares a vapor e construção de fábricas de papel, além de museus, casas de cultura, parques públicos e os primeiros projetos de moradia social.
Pioneira em exportar têxteis fora do monopólio NHM, a empresa possuía três navios construídos no sistema holandês de três mastros, que conferia velocidade, resistência e boa capacidade de carga. Entretanto, os navios à vela tornaram-se impraticáveis após a abertura do Canal de Suez, então vendeu a frota e direcionou tais recursos a financiamento e seguro de embarcações.

Com os progressos nas comunicações e equipamentos, a empresa tinha um dos mais avançados escritórios do país, ao mesmo tempo em que também expandia a atividade bancária. No início do séc. XX, como corretora na Bolsa de Valores de Amsterdã a Van Eeghen operava também em Nova York, Londres e Paris, sendo uma das principais instituições bancárias de Amsterdã. Entretanto, na década de 1960, a lei holandesa proibiu atividades comerciais e bancárias por uma mesma empresa, então, vendeu sua participação no ramo bancário.
No pós-guerra, de 1945 a 1960, percebendo o potencial da culinária, o grupo entrou no nicho de mercado de alimentos, passando a fornecer vegetais, ervas e especiarias desidratadas para processadores de alimentos, atividade que dominou por 45 anos, até que com o mercado saturado e altos custos de rastreabilidade da qualidade decidiram a saída estratégica desse segmento, em 2006.

Já então a Van Eeghen antecipara a virada de mercado para alimentos funcionais. O aumento do envelhecimento populacional e valorização da prevenção de saúde impulsionaram a incorporação de vitaminas, minerais, aminoácidos, extratos botânicos e antioxidantes a seu portfólio, daí surgindo novas frentes – nutrição infantil e clínica, e suplementos para esporte e bem-estar.
Jeroen Van Eeghen, liderando o negócio desde 2012, mantém o espírito inovador dos fundadores. Sua equipe de tecnólogos e químicos oferece consultoria técnica de aplicações e garantia de qualidade, um diferencial no mercado que sustenta a vantagem competitiva da Van Eeghen.
O áudio deste vídeo está em inglês. No player do YouTube, clique em ⚙️, ative as legendas automáticas e depois selecione Traduzir automaticamente → Português.
São 360 anos de longevidade sustentada por três pilares, sintetizados em três frases:
1) integridade e qualidade nos relacionamentos com parceiros e funcionários. “
…menos oportunismo, mais sensibilidade de longo prazo.” – Jeroen Van Eeghen.2) flexibilidade para adaptar-se e antecipar mudanças sem perder o foco no negócio principal. “…se você permanecer horizontal, em determinado momento desaparecerá.” – Jeroen Van Eeghen.
3) perseverança e tenacidade. “…quem viveu os picos e as crises de 360 anos aprende a manter sucessos e fracassos em devida proporção.” – Jeroen Van Eeghen.
Com governança bem instalada, a sucessão é tratada com rigor: processo estruturado, headhunter externo, avaliação independente e abertura a não familiares, se necessário. A acionista majoritária é uma fundação beneficente constituída em 1960, mantida por doações de todos os familiares, blindando a empresa dos típicos conflitos sucessórios. Confira as lições aprendidas e regras de sucesso da Van Eeghen.

Família Van Eeghen, Holanda – Lições Aprendidas e Regras de Sucesso
Regra nº 1 – Lição de 1662:
Escolha seu próprio caminho e nunca se junte a um monopólio.
Jacob van Eeghen, fundador da Van Eeghen Merchant Company em 1662, percebeu que, para ter sucesso, precisaria competir com a monopolista Companhia Holandesa das Índias Orientais. Ele decidiu, então, concentrar-se nas Américas, uma região negligenciada pela Companhia Holandesa das Índias Orientais, que tinha seus negócios voltados para a Ásia.
Regra nº 2 – Lição de 1705:
Contrate, e case, com mulheres fortes.
Quando Jacob se aposentou, seu filho, Christiaen van Eeghen, assumiu os negócios, mas faleceu inesperadamente, e sua esposa, Suzanna Block, assumiu a administração da empresa. Infelizmente, seu filho mais velho também faleceu jovem, então Suzanna mais uma vez salvou a empresa, tornando-se a primeira mulher líder de uma empresa familiar no mundo.
Regra nº 3 – Lição de 1778:
Profissionalize
Os irmãos Van Eeghen, Christiaen e Pieter, que era sócio de outra casa comercial chamada Juilion & Rulffs, uniram forças para estabelecer formalmente a empresa pela primeira vez. Pieter comprou a parte de seus sócios, a mãe, Cornelia, incorporou seus bens à empresa e assim nasceu a Pieter & Christiaen van Eeghen, que ao agregar a rede da Juilion & Rulffs ampliou consideravelmente a gama de produtos.
Regra nº 4 – Lição de 1793:
Priorize objetivos de longo prazo em vez de maximizar lucros de curto prazo com altos riscos.
Pieter van Eeghen e um grupo de 12 investidores holandeses (chamado Holland Land Company) compraram 3,45 milhões de acres de terra não urbanizada nos EUA. Pieter e seus sócios logo perceberam que não fazia sentido vender as terras para obter lucro rápido. Em vez disso, adotaram uma visão de longo prazo e começaram a fazer investimentos significativos na Holland Purchase, como a vasta extensão de terra ficou conhecida, pelos próximos 50 anos.
Regra nº 5 – Lição de 1863:
Parta, mas nunca se esqueça.
Os arquivos da Holland Land Company foram armazenados nos arquivos municipais de Amsterdã, onde cerca de 150 metros de registros históricos documentam a ilustre trajetória de Van Eeghen nos Estados Unidos.
Regra nº 6 – Lição de 1776 – 1960:
Diversifique, modernize e desapegue.
Van Eeghen desenvolvia atividades bancárias e fundiu esses serviços financeiros com a Oyens, criando o Oyens & Van Eeghen, que existiu por mais de 150 anos. Quando, na década de 1960, a lei holandesa proibiu a combinação de atividades comerciais e bancárias em uma única empresa, a Van Eeghen vendeu seu ramo bancário e hoje Oyens & Van Eeghen é um banco de private equity sem mais vínculos com o grupo de empresas Van Eeghen.
Regra nº 7 – Lição de 1864:
Preocupe-se com a sua comunidade local.
Um grupo de cidadãos liderado por Christiaen Pieter Van Eeghen comprou um terreno com pastagens e pântanos nos arredores de Amsterdã para criar um parque que vendeu por um florim ao município. Ao longo dos anos, membros da família Van Eeghen também estiveram envolvidos na fundação do Rijksmuseum, do Concert Building, do Stedelijk Museum e dos primeiros projetos de habitação social.
Regra nº 8 – Lição de 1950:
Preste atenção aos nichos de mercado.
Na década de 1950, a Van Eeghen percebeu o potencial de mercado da culinária oriental e exótica e o gosto por alimentos prontos de uma sociedade cada vez mais abastada. Eles se tornaram um dos principais fornecedores de vegetais desidratados para processadores de alimentos, o que acabou se tornando sua principal atividade comercial no futuro.
Regra nº 9 – Lição de 1990:
Seja ágil.
No início da década de 1990, Van Eeghen criou uma nova divisão de Ingredientes Alimentares Funcionais, focada na venda de especiarias exóticas, vitaminas e minerais.
Regra nº 10 – Lição de 1662 – 2026:
Mantenha-se fiel aos valores familiares.
Jeroen van Eeghen é o líder da 15ª geração da empresa familiar, tendo sido nomeado Diretor Geral do Grupo Van Eeghen em 2012. Assim como seus antecessores, Jeroen manteve vivo o espírito empreendedor do fundador. Ele emprega uma equipe de tecnólogos de alimentos e químicos altamente qualificados que oferecem aos clientes consultoria sobre aplicações, marketing e garantia de qualidade. É esse valor agregado que confere à Van Eeghen uma vantagem competitiva.
Fontes
Livros
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
Artigos
- Negócio familiar Van Eeghen, casa tradicional de comércio em alimentos em particular – por Miloe van Beek, em 29/09/2006 para Management Scope.
Reportagens
- Como uma empresa de 357 anos se reinventa no séc. 21 – 04/07/2019 – UOL Economia – para Tom Metcalf, Bloomberg-4/07/2019
Estudos
- https://www.pfbi.institute/knowledge-centre/case-study/case-study-van-eeghen (por Parampara Family Business Institute)
- CFBR Van Eeghen (por Wendel International Centre for Family Enterprise at INSEAD)
- https://www.henokiens.com/userfiles/file/Case_study_Van_Eeghen.pdf (por les Hénokiens)
Sites
- www. vaneeghen.com
- www.henokiens.com
- www.wikipedia.org
- www.bloomberg.com
- www.managementscope.nl
- www.gov.mb.ca
- http://www.food.gov.uk
Links
- http://www.gov.mb.ca/agriculture/statistics/agri-food/canada_functional_foods_en.pdf
- http://www.fdin.org.uk/output/Brigid%20McKevith’s%20Definitions.pdf
- http://www.nutraceuticalsworld.com/issues/2013-11/view_features/functional-foods-20-a-naturalevolution/#sthash.RIqdirH0.dpuf
- http://www.gov.mb.ca/agriculture/statistics/agri-food/canada_functional_foods_en.pdf
- http://www.fdin.org.uk/output/Brigid%20McKevith’s%20Definitions.pdf
- “NEHA: BARN: 81: Bankiers“. (Arquivo Econômico Holandês)


