Família Faber-Castell, Alemanha – Parte Primeira
Faber-Castell, fundação em 1761 d.C, instrumentos de escrita – Stein, Alemanha
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É quase certo que Stein, vizinha a Nuremberg, na Alemanha, guarda uma conexão lúdica com todo aquele que, sentado em um banco escolar, abriu um estojo de lápis de cor. Nessa cidade da Bavária, a família Faber-Castell é a fonte criadora de lápis e instrumentos de escrita, além de produtos de alta qualidade para design, aquarelas e outras formas de expressão técnica e artística há mais de 265 anos.

Do primeiro lápis produzido na antiga oficina em Stein ao maior lápis do mundo — medindo 19,75 m dentro de uma torre de vidro — na fábrica da empresa na Malásia, esse negócio familiar superou dificuldades político-econômicas, concorrentes, infortúnios e desafios na sucessão para consolidar-se como um império global, com fábricas em 10 países, distribuidores em 22 e revendedores em mais de 120.
Há 9 gerações, preservam um legado de valores que combina inovação, qualidade e marca com responsabilidade social e presença internacional, e fizeram da modesta oficina de um carpinteiro uma das empresas mais conhecidas do mundo, presente na vida de milhões de crianças e adultos.

Foi no Egito, por volta de 3.500 anos atrás, que varas queimadas utilizadas por hominídeos em pinturas rupestres evoluíram para pincéis capazes de traçar linhas finas em superfícies e, mais adiante — há cerca de 1.500 anos —, para estiletes de chumbo empregados por gregos e romanos para registrar dados em superfícies, até chegarem, em meados do século XVI, ao uso da grafite.
Grafite e diamante são as duas únicas formas alotrópicas do carbono que ocorrem na natureza, embora guardem características estruturais distintas, que dão origem a suas diferentes propriedades e aplicações. O diamante é transparente, abrasivo, o mineral mais duro conhecido e isolante elétrico; a grafite é opaca, lubrificante, um dos minerais mais suaves que se conhecem e condutora de eletricidade, sendo empregada em escala industrial em aplicações para eletrodos, baterias, lubrificantes, refratários, peças eletrônicas e minas de lápis. Minas de grafite já eram mencionadas na Bavária em 1400, enquanto na Inglaterra o foram apenas em 1504. Entretanto, foi lá, na Inglaterra — em Cumberland —, que achados históricos em notações de 1565 registraram minas de grafite coladas entre dois pedaços de madeira, assim consideradas os primeiros lápis — um fato que somente apareceu na Bavária em 1644.

Stein surgiu dentre os assentamentos à margem esquerda do rio Rednitz e provavelmente derivou seu nome da antiga ponte “Steinbrücke”, que cruzava o Rednitz. Historicamente mencionada pela primeira vez em 1296, a cidade foi destruída pelas guerras dos Margraves e dos Trinta Anos por três vezes — entre os séculos XV e XVII — e reconstruída outras tantas. Após a dissolução do Sacro Império Romano, em 1806, foi incorporada ao Reino da Bavária e, a partir de 1717, desenvolveu forte vocação para uma atividade típica na época: a produção de lápis.
Nesse contexto, Kaspar Faber, após terminar seus estudos e formar-se carpinteiro, mudou-se de Langenzenn para Stein a fim de exercer seu ofício, ali conseguindo estabelecer uma pequena oficina de manufatura de lápis, junto com a esposa Maria e o filho Anton Wilhelm, em 1761. Os primeiros lápis produzidos, feitos de grafite pura, quebravam facilmente e, para melhorar sua resistência, Kaspar começou a criar misturas de grafite moída com diferentes materiais, texturas e resinas, até eventualmente chegar a uma mistura com argila que possibilitava controlar variados graus de dureza. Embora modesta, a produção destacava-se pela qualidade, e foi essa sua herança ao filho Anton Wilhelm. Ele manteve o padrão elevado e prosperou gradativamente até adquirir um terreno nos arredores de Stein, onde construiu uma fábrica que, até hoje, permanece como sede da empresa e definitivamente associou Stein à produção de lápis.

No entanto, à época de Georg Leonhard Faber, filho e sucessor de Anton Wilhelm, os tempos eram difíceis para as empresas em um panorama político e socioeconômico pouco — para não dizer nada — promissor industrialmente. Por um lado, disputas territoriais entre a Prússia e a Áustria dos Habsburgos somavam-se ao poder dos déspotas esclarecidos nos principados; por outro, a estrutura ainda feudal vigorava nas bases essencialmente agrícolas, conjugada ao comércio enredado pela burocracia alfandegária e pelas diferentes moedas dos vários principados. Enquanto isso, despontava na Inglaterra o dinamismo da Revolução Industrial. Apesar de todas as adversidades, quase beirando a inviabilidade, Georg Leonhard Faber conseguiu manter a fábrica ativa e, antevendo que seria necessário aderir à modernidade para assegurar a continuidade da empresa, decidiu mandar o filho mais velho, Lothar Faber, em viagens a Londres e Paris, com o propósito de adquirir experiência comercial e industrial em países mais progressistas.
Assim preparado, Lothar assumiu a empresa em 1839 e chamou o irmão mais novo, Eberhard Faber, para o negócio no ano seguinte. Visionário e empreendedor, Lothar modernizou a empresa, mecanizou métodos e processos, construiu um moinho de água e introduziu a máquina a vapor, tornando a fabricação mais racional e aumentando a capacidade de produção. Abriu, desse modo, o caminho para a indústria de grande porte e, como segundo passo, investiu na alta qualidade da matéria-prima, adquirindo uma mina na Sibéria que produzia a melhor grafite da época. Passou, então, a marcar seus lápis com o nome A.W. Faber, criando os primeiros lápis de marca e, pioneiro no registro de marcas na Alemanha, apresentou, em 1874, uma petição por legislação específica para proteger a marca A.W. Faber das imitações dos concorrentes. Abriu filiais em Londres, em Noisy-le-Sec — próxima a Paris — e em Berlim, além de distribuidoras em Viena, São Petersburgo, Hamburgo e Nova York, para onde o irmão se mudou em 1849 e, mais tarde, em 1861, fundou a primeira grande fábrica de lápis estadunidense.
Primeiro fabricante de lápis a tornar-se independente de intermediários, Lothar consolidou alta reputação e projeção internacional pautadas pelo princípio de “elevar-me ao melhor que se pode produzir em todo o mundo”. Encontrou na esposa Ottilie, mulher educada e dinâmica, a parceira ideal. Juntos, trabalhavam incansavelmente na administração do patrimônio familiar, que incluía, além das fábricas e dos prédios comerciais, os produtos agrícolas, as propriedades rurais, a reforma do antigo castelo que servia de residência e o parque projetado nos jardins.
Lothar foi fundamental para o desenvolvimento da Bavária, participando da criação de instituições econômicas e culturais, além do desenvolvimento de iniciativas sociais, incomuns para a época, como plano de saúde e moradias para funcionários, apoio à criação de escolas, educação infantil e obras comunitárias. Por sua vez, Ottilie, culta e diplomática, coordenava ações filantrópicas e assumia funções representativas, recebendo membros da nobreza e hóspedes ilustres. Foi de tal ordem relevante a atividade do casal que, em reconhecimento por seus serviços, em 1881 Lothar recebeu o título nobiliárquico hereditário de Barão e foi nomeado conselheiro do Reino da Bavária, tornando-se Barão Lothar von Faber.
Para a sucessão, o casal preparou seu filho único para o papel futuro no comando de uma grande empresa internacional. Wilhelm von Faber recebeu formação empresarial na Suíça e viajou pela França e pela Itália, ingressando na empresa ainda muito jovem, aos 18 anos, em funções de gestão. Aprimorou suas competências, ganhou experiência e, dentro de uma década, assumiu a direção da unidade de Paris. Casou-se e teve 5 filhos — 3 mulheres e 2 homens —, dando sequência ao plano traçado por Lothar von Faber de entregar a obra à qual dedicara toda a sua vida a um descendente homem. Por infortúnio, seus dois netos homens — os filhos de Wilhelm von Faber — morreram de doenças infecciosas na infância, e um imprevisível ataque cardíaco levou Wilhelm von Faber à morte aos 41 anos. Foi um raio devastador para Ottilie von Faber, que passou a dedicar-se intensamente à formação das netas, orientando-as com atividades significativas, disciplina e modéstia. E não mais havia descendente homem para suceder ao Barão Lothar von Faber após sua morte e herdar seu título.

Lothar von Faber não pôde traçar outro destino para a 5ª geração. Mas, outro plano sucessório, sim.
Acompanhe, na segunda parte, no dia 1/10, o xeque-mate do Barão Lothar von Faber no jogo de xadrez com o destino.
Fontes
Livros
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
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