Família Giusti, Itália
Acetaia Giusti, fundação em 1605 d.C, vinagre balsâmico – Módena, Itália
🌐 www.giusti.com

Na região da Emília-Romagna, norte da Itália, uma cidade reúne três joias da cultura Made in Italy. É Módena. No automobilismo, significa Ferrari; para amantes da ópera, é berço de Luciano Pavarotti; na alta gastronomia, é sinônimo de Aceto Balsamico. Fundada em 1605, a Acetaia Giusti – Gran Deposito Aceto Balsamico di Giuseppe Giusti, seu nome histórico – é o mais antigo artífice do ouro negro de Módena, mantendo o meticuloso processo artesanal.

O legado familiar desse patrimônio está calcado em valores de qualidade, respeito e paciência, ao longo de mais de 420 anos, nos quais a tradição tem sido fio condutor entre passado, presente e futuro, por 17 gerações.
E foi pela audácia da 17ª geração em promover a governança, mirando a tradição como promotora do futuro, e não apenas como valor histórico, que a renovação estratégica transformou o pequeno negócio de âmbito regional em uma empresa inovadora, dinâmica, exportadora para 85 países e com boutiques em Bolonha, Florença, Milão, Seul, Hong Kong, Nova York e Munique.

Importa considerar as diferenças entre Aceto Balsamico Tradizionale di Modena – DOP e Aceto Balsamico di Modena – IGP. O primeiro, obtido exclusivamente pela cocção do mosto de uvas, é um elemento vivo que envelhece pela ação do tempo – livre de qualquer aditivo – em uma bateria de barris de madeira, por no mínimo 12 anos – o affinato –, ou por 25 anos – o stravechio; o segundo é uma composição de até 5 acetos de idades distintas, que pode receber aditivos e, nos melhores casos, algumas gotas de Aceto Balsamico Tradizionale. Ambos seguem normas, padrões e métodos controlados por institutos reguladores de classificação.
Para contextualizar o início disso tudo, recuemos no tempo, até 218 a.C. Os romanos subjugaram uma região ocupada por celtas – antes por etruscos e lígures –, que denominaram Mutina, como meio de consolidar o poder do Império Romano do Ocidente no norte da península, e a tornaram colônia romana em 183 a.C., durante a construção da Via Emília. A localização estratégica entre os rios Secchia e Panaro – afluentes do rio Pó – criou um centro de comércio e ponto essencial para a circulação militar, conferindo importância política a Mutina. Entretanto, com Roma desintegrando-se pelas investidas das invasões bárbaras, em 452 d.C., os hunos invadiram a região, comandados por Átila, saqueando cidades, levando os habitantes à fuga e aniquilando todo aquele território. Em 568 d.C., chegaram os lombardos ao vale do Pó, ali estabelecendo assentamentos, o que permitiu o ressurgimento de novos núcleos urbanos; e dos sedimentos do que fora Mutina originou-se Módena.
A esses antigos romanos são atribuídas as origens do aceto balsamico, habitualmente produzido pelas famílias locais, que ganhou relevância no Renascimento como símbolo de identidade familiar e patrimônio afetivo, oferecido como presente em ocasiões especiais. Cada família em Módena possuía sua receita e sua própria acetaia – depósito de barris de madeira para envelhecimento do aceto.
Em 1860, o enólogo e agrônomo Francesco Agazzotti, em carta ao amigo Pio Fabriani, relatou, detalhe por detalhe, como produzir o Aceto Balsamico Tradizionale di Modena. A produção deve seguir estritamente o método descrito nesse documento histórico para obter a classificação DOP, não havendo para ele limite de tempo de envelhecimento. A Giusti conta com edições históricas de 50, 75 e até 100 anos, embaladas na exclusiva garrafa de vidro criada pelo designer de automóveis Giorgetto Giugiaro.

As raízes da família Giusti são indissoluvelmente ligadas à evolução de Módena e à sua rica gastronomia. Nos documentos públicos do então Ducado de Módena, datados de 1605, estão registrados Giuseppe Giusti e Francesco Giusti como proprietários de uma salumeria na Via Farini, 75. Toma-se essa data como da fundação, embora relatos deem conta de que eram proprietários da salumeria já em 1598 e também produziam aceto balsamico, mantendo a acetaia no sótão da casa.
Entre o fim do séc. XIX e início do séc. XX, período da Belle Époque, a Acetaia Giusti alcançou grande reconhecimento e acumulou 14 medalhas de ouro, além de prata e bronze, nas grandes exposições e feiras nacionais e internacionais, entre elas Florença, Antuérpia e Paris. Tal excelência foi coroada, em 1929, com a designação como fornecedora oficial da Casa Real de Savoia, tendo o privilégio de usar o sinal distintivo do brasão real no gargalo das garrafas, assim como o das medalhas no rótulo.
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A sucessão nos negócios da família Giusti seguiu a prevalência direta da linha masculina até a 15ª geração, com Giuseppe “Beppe” Giusti no comando dos negócios. Beppe não teve descendentes diretos, mas tinha irmãs, condição que provocava inquietações em relação a direitos e legitimidade na linha sucessória. Desde a década de 1970, Luciano Stefani, casado com uma das irmãs, vinha trabalhando com Beppe na mudança corporativa do eixo do negócio, para focar mais na produção de aceto, no qual vislumbrava maior potencial global.
Com esse pano de fundo, na década seguinte, as instalações originais no centro histórico foram transferidas para a zona rural, onde ainda estão localizadas a sede e a unidade de produção, e, em 1989, vendida a salumeria (1*). Isso permitiu uma mudança decisiva de manufatura em pequena escala para empresa organizada, preservando, ao mesmo tempo, o caráter familiar. A propriedade foi dividida em partes iguais entre Beppe, Luciano Stefani e Luciano Gregorio, filho de outra irmã. Nas operações diárias, havia mais participação de Stefani, enquanto Gregorio era mais dedicado a outros interesses.
Após o falecimento de Beppe Giusti, em 1991, as tensões familiares aprofundaram-se com disputas societárias pelo controle, e coube 51% a Gregorio, em razão do laço familiar direto, e 49% a Stefani. Entretanto, Gregorio divorciou-se e, por conseguinte, teve sua participação fragmentada em 15% para a ex-esposa e 36% para ele. Desse modo, Luciano Stefani tornou-se majoritário.
Apesar dos desafios da disputa sucessória, a Giusti manteve a preservação do legado pautada em qualidade, tradição e fidelidade dos clientes. Tal estratégia, embora garantisse estabilidade, limitou o reconhecimento da marca e dificultou a expansão num mercado cada vez mais competitivo e saturado.

No início do séc. XXI, Claudio Stefani Giusti – filho de Luciano Stefani – era consultor na Accenture e recebeu uma proposta que o colocava a caminho de tornar-se sócio em Paris. Enquanto isso, chegou aos sócios da Giusti uma oferta para vender a empresa. Em seu íntimo, Claudio sabia quanto seu conhecimento podia gerar de impacto real e enxergou a Giusti como projeto pessoal e profissional, movido tanto pelo senso de pertencimento quanto pela vontade de provar sua competência além dos laços familiares.
Sua entrada na Giusti foi marcada por tensões geracionais. Cada alteração proposta tornava-se combustível para acaloradas discussões entre pai e filho. Luciano confiava no filho, mas resistia a mudanças e à perda de controle. Claudio reconhecia o valor do pai como guardião da tradição, mas defendia uma liderança mais colaborativa, orientada à inovação e à resposta ao mercado.
Em 2013, outra oferta de terceiros para compra, com oportunidade de Claudio crescer com a nova empresa, intensificou os conflitos. Enquanto os potenciais compradores projetavam retorno financeiro no curto prazo, Claudio temia a perda de identidade familiar, autonomia decisória e compromisso com os funcionários. Após longas negociações, em 2015, a oferta foi rechaçada. Claudio adquiriu 60% da Giusti por meio de uma compra alavancada, de aproximadamente € 6,6 milhões, avaliando a empresa em € 11 milhões.
Assim, a 17ª geração assumiu o controle do negócio e, ao mesmo tempo, Claudio preservou o vínculo com o pai, atribuindo-lhe a administração financeira. A decisão simbolizou a busca por equilíbrio entre tradição e renovação: manter o legado familiar, fortalecer a identidade da marca e conduzir a Giusti a uma nova fase de crescimento sustentável. Luciano Stefani tinha 75 anos; Claudio, 39.
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As lições da 17ª geração da família Giusti
1. Preservar a tradição com inovação
Manter a qualidade e a história da marca, mas modernizar marketing, canais de venda e gestão comercial.
2. Reduzir a resistência à mudança
Envolver a geração anterior nas decisões estratégicas, valorizando sua experiência sem bloquear novas iniciativas.
3. Profissionalizar a gestão
Implementar processos, indicadores de desempenho, governança e uma equipe executiva complementar.
4. Expandir a marca
Investir em posicionamento premium, presença internacional, storytelling e diferenciação frente aos concorrentes.
5. Evitar venda desalinhada aos valores familiares
Priorizar investidores ou parceiros que respeitem identidade, funcionários e visão de longo prazo.
6. Gerenciar o risco financeiro da aquisição
Controlar endividamento, melhorar margens, buscar crescimento sustentável e acompanhar fluxo de caixa com rigor.
7. Fortalecer o diálogo familiar
Criar fóruns de decisão para reduzir conflitos geracionais e alinhar expectativas sobre o futuro da empresa.
8. Valorizar funcionários e cultura
Comunicar mudanças com transparência e manter o compromisso com a equipe durante a transformação.
9. Definir uma estratégia de crescimento sustentável
Combinar expansão comercial com preservação da qualidade, da reputação e da autonomia da Giusti.
Nota: (1*) – A Premiata Salumeria Giuseppe Giusti passou às mãos da família Morandi e funciona regularmente no endereço de sempre: Via Farini, 75. https://hosteriagiusti.it/la-salumeria-giusti/
Fontes
Livros
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
Artigos
- A histórica acetaia de Modena que conquistou os Savoia e hoje conquista os grandes mercados, por Giorgia Roca, para revista Virtu quotidiane: https://www.virtuquotidiane.it/enogastronomia/giusti-storica-acetaia-di-modena-che-fece-innamorare-i-savoia-e-oggi-conquista-i-grandi-mercati-esteri.html
- Seu vinagre balsâmico provavelmente não é genuíno; saiba por que, por Priya Mane, para BBC: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cw5w4p0kg3ro
Reportagens
- A história do Aceto Balsamico dos Giusti, com Claudio Stefani Giusti para a revista Gula;
https://www.rivistalagola.it/il-racconto-balsamico-dei-giusti/
Institutos e Associações
- Parampara Family Business Institute – www.pfbi.institute
- Les Hénokiens – Association Internationale d’Entreprises Familiales et Bicentenaires – www.henokiens.com
- INSEAD – www.insead.edu
Sites
Links
- https://www.packagingpremiere.it/en/speaker/claudio-stefani-acetaia-giusti/
- https://www.italiangourmet.it/acetaia-giusti/
- https://www.marcobechi.it/attualita-e-dintorni/acetaia-giusti-a-modena-la-piu-antica-acetaia-al-mondo/
- https://tastecooking.com/truth-balsamic-vinegar/
- https://web.archive.org/web/20240914180114/https://www.thegiftofoil.co.uk/the-history-of-balsamic-vinegar/
- https://www.italicatessen.ie/giusti-balsamic
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