Família Brooke – Inglaterra
John Brooke & Sons – fundação 1541 d.C., – roupas de lã – Huddersfield, Inglaterra
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Desde 1541 d.C., a família Brooke entrelaça sua história com a vida daqueles que vivem, trabalham e se divertem em Huddersfield, cidade no condado histórico de Yorkshire, centro norte da Inglaterra.
São 19 gerações da segunda maior empresa familiar do Reino Unido, que não hesitou abraçar os implacáveis progressos surgidos ao longo de seus 485 anos de existência, para perenizar a empresa e preservar o legado familiar.

1541 d.C. é a data do estabelecimento do negócio, entretanto o início da história antecede a 1521, ano da morte de Roger Brooke, primeiro ancestral conhecido, um “clothier” – alguém que confecciona ou vende roupas – que vivia no vale do Holme, um dos muitos rios e ribeirões que recortam West Yorkshire, onde ele, ainda em vida, havia adquirido de algumas freiras as terras usadas para pastoreio de ovelhas.
Yorkshire servira aos romanos como fortaleza militar antes do domínio normando no séc. XI, e, durante os dois séculos seguintes, monges beneditinos, agostinianos e cistercienses fundaram ali importantes mosteiros.
Na primeira metade do séc. XIV, a devastadora Peste Negra dizimou boa parte de sua população e amplas extensões de terras utilizadas para cultivo agrícola, acabaram convertidas em pastagem para o gado ovino destinado à produção de lã. Essa, a lã, tornou-se a mais importante exportação da Inglaterra, estimulando durante os séculos XIV e XV, nas cidades daquela região, sua manufatura que transformava a matéria-prima crua em valiosos tecidos.
Sob Henrique VIII, teve início a Reforma Inglesa, entre 1532 e 1534, com o Ato de Supremacia aprovado pelo Parlamento, que declarava o rei Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra. As disputas políticas, a princípio fator preponderante do conflito, aprofundaram atritos de ordem doutrinária já existentes, culminando na dissolução de mosteiros, confisco de terras e propriedades.

Nesse cenário, o filho de Roger, John Brooke – então um pequeno agricultor – e Homfray, filho dele, arrendaram em 1541 um lanifício, outrora operado por monges do antigo mosteiro medieval de Nostell, iniciando um negócio de produção de tecidos e roupas de lã.
Originalmente de cunho doméstico, a indústria centrada na lã cresceu amplamente em Yorkshire, onde vales às margens dos rios, que descem dos Montes Pennines, ofereciam terreno propício às pastagens e ao aproveitamento para geração da energia hidráulica necessária para mover os maquinários. Essa expansão trouxe a mudança de manufatura rural para unidades fabris, criando cidades industriais em todo West Workshire.

Com o início da Revolução Industrial em 1760, as transformações culturais, socioeconômicas e invenções como a máquina de fiar e o tear mecânico, resultaram no aumento de uma escala de produção com menor dispêndio de energia humana e no desenvolvimento de novas habilidades. A força de trabalho passou dos artesãos que utilizavam ferramentas manuais para operadores de máquinas sob disciplina de fábrica. Estabelecida em Huddersfield, John Brooke & Sons prosperou amplamente entre o final do séc. XVII e meados do séc. XIX, com sua produção industrial centrada na lã.
Em 1789, comandada por William Brooke, a empresa mudou-se para Armitage, essencialmente para garantir à fábrica acesso a uma maior potência de energia hidráulica, acompanhando os progressos introduzidos pela nova era. Foi um único e definitivo movimento, que – exceto pela inusual torre do relógio – reuniu todas as instalações de então, seguiu nos anos seguintes adicionando outros edifícios e construiu casas, em resposta às necessidades apresentadas pelo ciclo virtuoso de crescimento que experimentava.

Renomada pela excelência de sua lã fina, John Brooke & Sons tornou-se o fornecedor de excelência para o Exército e a Marinha Real, durante as Guerras Napoleônicas, e de uniformes especiais para funcionários do Banco da Inglaterra, por mais de 100 anos. Amostras de seus tecidos de lã com amplas medidas de largura, produzidos por teares de grande tamanho, foram um sucesso avassalador na Grande Exposição de 1851, em Londres, a primeira das grandes feiras internacionais. À época a empresa possuía 220 teares e empregava 900 trabalhadores.
Como fornecedor das tropas britânicas, John Brooke & Sons teve papel de importância crucial nas Guerras Mundiais do séc. XX, uma vez que lã inglesa era o tecido preponderante utilizado nos uniformes militares. Itens essenciais do equipamento militar, as roupas, confeccionadas em lã grossa e resistente, eram projetadas para suportar o rigor do combate, as condições inóspitas nas trincheiras e manter os soldados aquecidos em climas frios e úmidos. Mais que simples escolha de material, a lã inglesa foi recurso vital e estratégico para a logística de sobrevivência das tropas britânicas nos dois conflitos mundiais. Depois, a partir do pós-guerra, destacou-se como fabricante dos tecidos de Marks & Spencer, loja de departamentos referência mundial do varejo de qualidade.
Ao final do séc. XX, novos players invadiam os mercados mundiais operando em faixas de custos tão reduzidas, que quebravam os limites praticáveis da concorrência no Ocidente. O espectro que então se desenhava para a economia global, não mais concebia trincheiras ao mesmo tempo que, sintéticos avançavam em espaços tradicionais. A indústria têxtil de lã entrou em acentuado declínio em Yorkshire que, por resiliência, moveu gradualmente seu foco econômico para novas indústrias e serviços. Implacável, o progresso bateu à porta de John Brooke & Sons e no final da década de 1980, eles tiveram que encerrar a produção.

Sim, isso acontece também às empresas centenárias. E a depender do seu nível de governança instalada e praticada, podem-se especular possíveis desdobramentos:
- venda da empresa
- downsizing da operação
- venda de patrimônio
“A recessão é um momento difícil para administrar uma empresa familiar, mas já passamos por períodos de prosperidade e recessão e sobrevivemos a eles.” – Mark Brooke, CEO da Brooke’s Mill.
Mark Brooke e seu irmão Massimo, 19ª geração à frente do negócio, decidiram reinventar a empresa. Naqueles edifícios centenários que já sediara sua fábrica, gradativamente criaram um parque empresarial, que atualmente emprega 230 pessoas e abriga uma diversificada comunidade de 40 empresas em que se encontram estúdios de cinema, galerias de arte, escolas de dança, cafés e serviços como finanças, saúde e design.
Não apenas instalações foram revitalizadas. A marca foi reformulada e criada nova identidade visual, redesenhado o brasão da família e desenvolvidas estratégias de marketing digital.

“Brooke’s Mill sempre foi sinônimo de progresso. Por quase cinco séculos, nossa família adaptou-se às mudanças, respeitando nossa herança” – Mark Brooke
Para preservar a memória do legado histórico, contando a história de sua família, das pessoas que lá trabalharam e da indústria têxtil em Holme Valley, Mark entrou em contato com a Universidade de Huddersfield e daí resultou a exposição permanente “A História de uma Fábrica de Yorkshire : 400 Anos de Fabricação de Tecidos”, inaugurada, em outubro último, por membros da família Brooke com a presença de antigos funcionários da fábrica e dos estudantes de História e Patrimônio que realizaram as pesquisas para o projeto.
Brooke’s Mill aproxima-se de seu 500º aniversário com foco na preservação do rico legado familiar e ao mesmo tempo que abraça o progresso.

Fontes de pesquisa
Livros
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
Reportagens
- “How one of Britain’s oldest firms – historic Brooke’s Mill – is embracing a digital future”, para Huddersfield Hub em 29/10/2025.
- “Historic Huddersfield heritage site marks new era with digital rebrand and modern vision”, para KLTV em 26/10/2025.
- “Family firm weaves story from 400 years of history” – para Yorkshire Post, em 26/09/2011.
- “Making cloth that saved lives” – por Humphrey Brooke, para Country Life Magazine, em 11/05/1983.
Sites


