Família Torrini, Itália
Torrini 1369 S.R.L., fundação 1369 d.C. – ourivesaria, Florença – Itália
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Francesca Torrini é a presidente da TORRINI 1369, marca de joias mais antiga do mundo e a primeira a registrar sua trademark™. Desde 1300 d.C., ao longo de 26 gerações, o negócio da família Torrini constrói com paixão um legado que cria joias da mais alta qualidade e elegância, manufaturadas uma a uma por mestres ourives e lapidários.

Joias existem desde a Pré-história – Neolítico e Idade do Bronze –, evoluindo do uso de pedras e metais em utensílios variados até diversas técnicas de lapidação e ourivesaria empregadas na criação de objetos de arte e adornos pessoais. Encontram-se os registros mais antigos dessa arte na Necrópole de Varna (Bulgária), entre os achados arqueológicos datados de 4600 a.C. a 4200 a.C., e, por análises empregando microscopia eletrônica de varredura (MEV), sabe-se que, na Mesopotâmia, por volta de 3000 a.C., o homem já desenvolvera habilidades que haviam tornado comuns os cilindros feitos de serpentina e a lapidação de pedras para criar amuletos de proteção pessoal. Uma arte quase sempre associada com beleza, riqueza, afetos e poder.
A História nos ensina, e facilmente podemos constatar em viagens, relatos e fotos, que Florença, terra dos Medici e tida como berço do Renascimento, oferece um patrimônio inigualável de registros históricos de cultura, arte, beleza e poder. Talvez por isso faça todo o sentido que a primeira empresa a registrar uma trademark™ no mundo das joias seja florentina.
Encontramos as raízes dessa história em Vignano – vila próxima a Siena –, em uma família de artistas e escultores de nome patronímico Turini. Dentre os membros dessa família, destacava-se Bernardo por sua habilidade em metalurgia, trabalhando com metais nobres.
No início do séc. XIV, em Mugello, perto de Florença, formava-se uma nova vila, Scarperia, e para lá mudou-se Bernardo, em 1306. Seus filhos, Jacopus e Tura, herdaram o talento paterno e estabeleceram um ateliê especializado em armaduras e arreios. Reconhecidos como excelentes artesãos, recebiam muitas encomendas e, logo, sua fama ultrapassou os limites da República Florentina, tornando Scarperia uma parada estratégica e bastante popular ao longo da estrada que seguia rumo ao norte. Eventualmente, Tura voltou a Siena, colaborando com os artistas locais em obras para o Duomo e o Palazzo Comunale, entre outras.

Em 1369, a República de Florença exigiu a todos os artesãos, inclusive aqueles de vilas e áreas rurais vizinhas, o registro nas guildas. Armeiro que era, respeitando os regulamentos editados, Jacopus foi a Florença e registrou sua marca na Guilda dos Fabricantes de Couraças, Chaves e Serralheiros. No Arquivo Estatal de Florença, encontra-se o documento original, com as palavras “Jacopus Turini de la Scharperia facit hoc signum” e o desenho da letra B – inicial do nome Bernardo – transpassada por uma espora. Esse registro, além de afastar qualquer vínculo de servidão, concedia isenção de impostos por 10 anos, o que Jacopus aproveitou para instalar um novo ateliê, onde se distinguiu por fazer couraças e espadas de alta qualidade e elevado valor estético.
Esse fato serviu de inspiração para o curta-metragem “Signum – Le radici di un marchio”, do diretor Giuseppe Ferlito, vencedor do concurso organizado em 2015 pela Unione Imprese Centenarie Italiane, associação que congrega as empresas italianas centenárias.
O filme está disponível no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=7P-SpP26sQA) e podemos assistir a um trecho em https://www.youtube.com/watch?v=2cl3EBUsao0&t=11s.
Em alguma data próxima do final do séc. XIV, Jacopo juntou-se ao irmão Tura, em Siena, onde exerciam com maestria suas atividades e transmitiam os segredos do ofício aos descendentes de Tura, uma vez que Jacopo não tinha descendentes. Ali trabalhavam com ourivesaria, lapidação, esmaltaria e madeira policromada, desempenhando papel destacado na evolução da arte toscana.
Mais adiante, na primeira metade do séc. XV, era Giovanni quem protagonizava o ateliê da família, que foi a figura mais representativa da ourivesaria sienesa de então. Giovanni Turini aplicava grande conhecimento às artes que praticava, sendo comparável aos maiores artistas daquele período, como Donatello e Ghiberti, dos quais se tornou amigo.

Siena esteve envolvida nos conflitos entre Espanha e França – séc. XV e séc. XVI – pela supremacia de territórios italianos, que culminaram no tratado de Cateau-Cambrésis (1559), que consolidou a hegemonia espanhola na região. Nesse período, os Turini fugiram de Siena, retornando a Mugello, perto de Florença, e, reunidos em família, por razões patronímicas ou talvez para esquecer os quase 200 anos vividos em Siena, decidiram mudar o nome de família para Torrini.
O séc. XVIII foi marcado por Francesco Torrini, que, em 1700, ingressou na Arte da Seda, a guilda mais nobre de Florença e à qual pertenciam ourives com o ofício de criar fios de ouro extremamente finos para tecer cortinas de seda. Mestre Francesco tinha o ateliê ao lado da Ponte Vecchio, onde magistralmente criava e vendia joias e objetos artísticos, alguns dos quais ainda podemos admirar no Arquivo Histórico Torrini.
Sucedendo-se as gerações, em meados do séc. XIX, Giocondo Torrini alcançou fama internacional nas Exposições Universais da época. Giocondo, de rara habilidade comercial aliada ao talento artístico, logo captava mensagens estéticas, referências culturais e novas ideias que codificava em joias e esplêndidos objetos de arte decorativa.

Em 1944, o ateliê ao lado da Ponte Vecchio foi bombardeado e, após a reconstrução, Guido Torrini passou o negócio aos filhos Aldo e Franco. Não é incomum que sucessores de empresas longevas sejam afetados por problemas que executivos profissionais raramente encontram.
Uma citação do dramaturgo Tennessee Williams – “… a palavra mais perigosa em qualquer língua humana é a palavra irmão” – desperta algumas reflexões contemporâneas:
- Um negócio familiar pode sobreviver à guerra entre irmãos?
- Identidade/objetivo/relacionamento – o que pesa mais nos conflitos?
- Há divisão justa do legado, patrimônio, marca quando a ruptura é inevitável?
Aldo Torrini perseverou na identidade artesanal de criar e fabricar joias, tendo como objetivo a excelência na qualidade do estilo atemporal. Passou o negócio à sua filha, Alessandra, e, a ela, sucedeu Fabrizio, que, desde 2011, é o único proprietário da histórica empresa Torrini Manifattura Orafa Firenze.

Por sua vez, Franco Torrini, destacado gemólogo e último mestre da Ourivesaria Torrini, fundou o Archivio Storico Torrini 1369 com a missão de administrar e proteger a história e a identidade da marca no setor de ourivesaria, sob uma perspectiva histórica e cultural. Em 1969, registrou a antiga marca no Instituto Italiano de Patentes e Marcas, na era moderna. Por conta própria, sua filha, Francesca, reabriu a sede do século XIX, na Piazza Duomo, em Florença, usando a antiga marca registrada de 1369.

26ª geração, Guido Torrini, filho de Francesca, é o diretor criativo e marca a reformulação de Torrini para G.Torrini, empregando esforços mais amplos de marketing. Sua pesquisa contínua o leva a criar joias refinadas, ricas em diamantes e pedras preciosas, seguindo proporções áureas e a tradição da ourivesaria da família. É sob essa ótica que suas coleções mais recentes celebram mais de 650 anos da marca histórica.

Fontes de pesquisa:
Livros
- Grant Gordon e Nigel Nicholson – Family Wars (Kogan Page, 2008)
- Mark H. Daniell e Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro de 2003)
Sites
- www.henokiens.com
- www.uicitalia.org
- www.unioncamere.gov.it
- www.gemsociety.org/article/the-history-of-lapidary/
- www.corriere.it/economia/09_gennaio_06
Artigos e referências


