Família Beretta, Itália
Fabbrica D’Armi Pietro Beretta – fundação 1526 d.C. – armas de fogo, Gardone – Itália
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Guerras, paz, ascensão e queda de nações ao longo da História são o pano de fundo da história de artesanato, inovação, revolução industrial e implacável obsessão pela qualidade, presentes no DNA da Fabbrica d’Armi Pietro Beretta S.p.A., a mais antiga fabricante de armas do mundo, atualmente administrada pela 15ª geração.

3/10/1526 é a data do recibo assinado por Mestre Bartolomeo Beretta, de Gardone Val Trompia, território perto de Bréscia, na Lombardia, pelo pagamento de 296 ducados por 185 canos de arcabuz, efetuado pela Casa do Arsenal da República de Veneza. Embora seja essa a primeira data registrada, provavelmente as atividades da família remontavam ao séc. XV. O título de Mestre, na época das guildas artesanais, indicava experiência de pelo menos 2 gerações e Beretta estabelecera sua forjaria em uma zona rica em ferro, contando com muitas forjas, onde já se produziam armas antes da chegada dos romanos, logo, ser fornecedor da República de Veneza era indício de excelência. Bartolomeo desvendou os mistérios da forja, limagem e perfuração de canos, parte fundamental de uma arma de fogo.

No séc. XVI, o forte expansionismo do Império Otomano aterrorizava tanto a Europa, que em 7/10/1571 travou-se nas águas do Golfo de Corinto, a maior batalha naval da história ocidental: a Batalha de Lepanto. Nesse dia, durante 5 horas, a frota da Liga Santa – formada pelas Repúblicas de Veneza e de Gênova, o Império Espanhol, os Ducados da Toscana e de Saboia, os Estados Papais, a Ordem de Santo Estevão e os Cavaleiros de Malta – enfrentou e destroçou a frota do Império Otomano. Além da derrota moral imposta à supremacia militar otomana, tida como invencível, a vitória de Lepanto marcou um ponto de inflexão e deteve o avanço otomano no Mediterrâneo. Os canos que equiparam os arcabuzes das 109 galés e galeaças de Veneza foram produzidos pela Beretta.
Por essa época, Jacopo, filho de Bartolomeo, passava todos os segredos, detalhes e conhecimentos recebidos de seu pai – falecido em 1565 – ao filho Giovanni e ao sobrinho Giovan Antonio, que os transmitiram a seus filhos e estes sucessivamente a cada nova geração.
Mais adiante, apesar das muitas dificuldades originadas por dominações estrangeiras em territórios italianos, despontou no século XIX um círculo virtuoso com Pietro Antonio Beretta à frente do negócio. Ele aperfeiçoou a arte de fabricação de canos lisos e, não somente isso, empreendeu viagens de norte a sul, leste a oeste, para divulgar a excelência de seus produtos, além de registrar a marca e o nome Fabbrica d’Armi Pietro Beretta. Seguindo seu incansável empreendedorismo, Giuseppe Antonio, que o sucedeu, deu forte impulso à exportação e distribuição, focado nos produtos de mais alta qualidade. Descortinou assim, espaços e oportunidades no mercado que se tornava mais competitivo internacionalmente e promoveu profunda renovação de todo o maquinário e das habilidades técnicas, privilegiando a produção, até então inusual, de armas finas. Sob sua gestão, foi construída uma sede geral, que segue ativa ainda hoje.

O início do século XX foi determinante para a história da empresa sob comando de Pietro Beretta. Inteligente, intuitivo e carismático, Pietro implementou as mais modernas técnicas de produção da época e patenteou numerosos mecanismos, dispositivos e tecnologias. Uma guinada que mudou a cara da empresa e transformou a Beretta não apenas na mais importante fabricante de armas, como também numa das empresas mais sólidas e eficientes do mundo, saltando de 130 para 1.500 trabalhadores.
“Um equívoco comum: a ideia de que a guerra é sempre boa para os fabricantes de armas. No nosso caso, ela trouxe enormes dificuldades. O que nos sustentou não foi o lucro, mas a perseverança”. -Pietro Gusalli Beretta, presidente de Beretta Holding Grupo.
A Segunda Guerra Mundial foi devastadora para a família e o negócio, com a fábrica tomada pelos nazistas quase totalmente destruída por bombardeios. A família tinha que decidir aonde ir com o pouco que restara além de sua reputação e do hábito do trabalho árduo. Nada ilustra melhor a situação alarmante que o relato de Pietro Gusalli Beretta:
“Meu bisavô, desesperado para preservar o negócio e proteger as pessoas, tomou uma decisão crucial. Ele entregou as últimas reservas de ouro da família aos oficiais alemães em troca da liberação das instalações. Por que estou contando isso? Às vezes, a história é reescrita em apenas alguns momentos cruciais, e este realmente captura o compromisso de longo prazo com os negócios da família”
A reconstrução foi bem-sucedida e expandiu o negócio para os setores militar e esportivo, iniciando a internacionalização e fazendo da empresa uma multinacional.
Em dezembro de 1949, o logotipo com as letras PB foi substituído pelo que vigora até hoje. O círculo com três flechas que acertam três alvos foi inspirado em desenhos do poeta Gabriele d’Annunzio para o lema “Acerte o alvo” (dare in brocca) e marca a continuidade do legado recebido, inspirando a alcançar novos patamares e explorar infinitas oportunidades de crescimento.

Em 1995 a família fundou a Beretta Holding, sediada em Luxemburgo, consolidando a propriedade sob uma única holding e simplificando a complexa estrutura construída ao longo de 470 anos.
Então, e pra valer, começou a expansão, sob o lema do fundador – “Prudência e Audácia”. Em outubro de 2025, 499 anos depois do primeiro recibo, a Beretta tem 180 patentes ativas, congrega mais de 50 empresas e 20 marcas, que produzem armas para segurança institucional, defesa, caça e esporte, além de munições, miras telescópicas, roupas táticas e de luxo, lunetas e binóculos. Ainda estabelecida em Gardone Val Trompia, estende-se por mais de 100.000 metros quadrados, emprega 3.000 pessoas, opera em 17 países e acumula medalhas em jogos olimpícos.
A vocação da Beretta para a expansão a partir da dicotomia prudência-audácia, provoca algumas reflexões contemporâneas.
- Um paradoxo pode ser uma vantagem competitiva?
- Objetivos financeiros comungam com riqueza socioemocional?
- Empreender supera o legado?
“Para nós, tradição não significa fazer as coisas como sempre foram feitas. Trata-se de entender de onde viemos, para poder decidir com clareza para onde queremos ir. Na verdade, tratamos a inovação como algo inegociável” – Pietro Gusalli Beretta.
Todas as gerações da família Beretta trabalharam para manter o duplo foco em qualidade e inovação e cultivaram o amor por artesanato. Artesãos trabalham, lado a lado, com robôs em instalações com tecnologia de ponta para produzir armas da mais alta qualidade, lentes e miras polidas manualmente com pó de diamante. Compromisso inabalável com a excelência, que significa investimento contínuo em P&D.
“Temos algo que outros não têm e nunca terão: uma só família proprietária. Quando temos que tratar com governos estrangeiros, somos meu irmão e eu quem se reúne com o presidente” – Pietro Gusalli Beretta.
A família Beretta é devotada às suas raízes na pequena cidade de Gardone Val Trompia, cercada por florestas montanhosas, longe da vida urbana, apaixonados pela vida selvagem ao ar livre e pela caça. O contato próximo com a população local, em seu dialeto característico, contribui para uma cultura corporativa íntima e familiar. Ao cultivar simultaneamente valores tradicionais e abraçar a inovação, a Beretta emergiu como uma empresa duradoura, vital e adaptável.

Fontes de pesquisa:
Livros
- Mark H. Daniell e Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro de 2003)
- Manuel Rivero Rodríguez – La batalla de Lepanto – Cruzada, guerra santa e identidad confessional (Sílex Ediciones S.L., novembro 2008)
Artigos
- Peter Westberger – The Fifteenth Generation: A Conversation with Pietro Gussalli Beretta, entrevista para Quartr/Insights – 10/07/2025
- Giacomo Tognini – Cómo la saga familiar Beretta sigue reinventándose (para Forbes España, 02/03/2025)
- Ugo Gussalli Beretta – Portrait por “Les Hénokiens – Association Internationale d’Entreprises Familiales et Bicentenaires”
- Case Study Beretta.pdf – por “Les Hénokiens – Association Internationale d’Entreprises Familiales et Bicentenaires”
- Dr. Rodolfo E. Parbst – El fabricante de armas más antiguo (para rodolfoparbst.blogspot.com, 31/01/2016)
- Pietro Beretta, em Treccani Enciclopedia
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