Família Barovier&Toso, Itália
Barovier&Toso – fundada em 1295 d.C. – cristais e vidros murano, Itália
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Na ilha de Murano, em Veneza, Jacopo Barovier comanda a Barovier&Toso, sexta empresa em atividade mais antiga do mundo. Desde 1295 d.C., a família Barovier transmite geração após geração os segredos do sopro da vida ao vidro.

Antes anexada pelo Império Bizantino, Veneza tornou-se uma cidade-estado e, graças à sua localização estratégica, alcançou amplo poder mercantil e naval, consolidando seu domínio marítimo no Mediterrâneo. Mesmo expulsos de Constantinopla após a reconquista pelo Império Bizantino em 1261, os venezianos mantiveram seus privilégios comerciais e poder. Nesse cenário, em algum lugar indeterminado entre a história e a lenda, Murano teve suas origens envoltas na névoa da lagoa veneziana onde, permeados por influências asiáticas e árabes, mestres vidreiros desenvolveram a arte de imprimir visão artística a uma massa incandescente e amorfa. (veja 3 processos no link abaixo)

O historiador Vincenzo Zanetti, fundador do Museu Vetraio, sustentava que a fabricação de vidro na ilha veio de Altino. Apesar das imprecisões históricas, é possível encontrar em 3 documentos públicos, datados de 983 d.C., 1083 d.C. e 1090 d.C. o termo “fiolario” designando garrafa bojuda de gargalo longo.
Em 1291, a República de Veneza proibiu os fornos das fábricas de vidro dentro da cidade, quase sempre instalados em construções de madeira onde incêndios eram frequentes. Para evitar o desastre de um possível grande incêndio em toda a cidade, foi ordenado aos vidreiros que transferissem os fornos para Murano, concentrando ali toda sua produção e de onde não poderiam sair sem expressa autorização da República. Contudo, podiam portar espadas, gozavam de imunidade judicial – o que então não era pouco – alcançaram elevado status socioeconômico e, embora de berço humilde, podiam esposar mulheres nobres.

A família Barovier, originária de Treviso, fabricava garrafas e se estabeleceu em Murano no século XIV, havendo, em 1348, menção escrita pelo prefeito de Murano aludindo a um de seus membros, Bartolomeo Barovier. A proeminência, porém, veio com seu neto, Angelo Barovier – homem tipicamente renascentista, dotado de sensibilidade artística e saber científico. Em 1455, por decreto, recebeu a concessão de direitos de exclusividade para produzir vidro cristal com a técnica que criou. Técnica essa pela qual o vidro evoluiu das cores fortes, formas sólidas e robustas, do séc. XV, para a concepção de um vidro mais fino, etéreo e transparente, no século XVI, irradiando elegância e classe. Após sua morte, o negócio passou a seus filhos Marino e Maria, dando início à transmissão de um legado artístico singular.
Os vidreiros venezianos desenvolveram receitas e métodos secretos e atingiram o apogeu, mantendo por séculos o monopólio do vidro artesanal. Aos que correram o risco de instalar fornos em outras cidades ou países, jamais foi permitido retornar à República e acabaram por disseminar segredos profissionais, o que gradativamente reduziu importância à Murano.
“Esses séculos nos ensinaram uma coisa em particular: a melhor maneira de manter uma tradição viva é vivê-la”. (extraído de Enlightening Uniqueness.pdf, por Barovier&Toso)

Em 1797, a queda de Veneza foi uma catástrofe com os decretos napoleônicos abolindo as guildas de ofícios e cancelamento de matrículas das fundições. Além da crise industrial, as vidrarias enfrentavam a concorrência da produção de outros países e a pesada tributação sobre matérias-primas e produtos exportados. A estagnação técnica e estética foi devastadora.
Mesmo nos períodos de maior declínio, a família Barovier conseguiu proteger sua marca e manter-se em atividade até brotarem os ares da recuperação com fundições retomando a produção de alguns tipos de vidro e, em 1854, a fundação do forno dos irmãos Toso. O renascimento teve impulso sob a liderança empreendedora de Antonio Salviati, que depositou sua mais alta confiança em Giovanni Barovier, mestre de prodigiosas habilidades técnicas, já em idade avançada, que passou seus conhecimentos a seus irmãos e sobrinhos.
Após a guerra de 1866, que anexou o Vêneto à Itália, Murano recuperou seu esplendor com a criação de processos modernos e inovadores de vidraria. O início do século XX foi promissor, sobretudo para a família Barovier, consagrada em todas as grandes exposições mundiais de arte pela impressionante habilidade técnica de seus artesãos e pela versatilidade de suas criações. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a família teve que se exilar e transferiu, em 1916, seu forno para Livorno, onde pôde seguir produzindo. Tão logo terminado o conflito, prontamente retornaram à ilha.

Dessa história surgem algumas reflexões contemporâneas.
- Destino ou sorte podem determinar a longevidade empresarial?
- A tradição pode resistir à inovação?
- A quem pertencem história, legado e patrimônio da família?
“Para chegar aonde estamos agora, tivemos que transmitir nossa arte para a próxima geração de artistas por mais de setecentos anos. Técnicas ancestrais mantidas vivas por meio de implementação e desenvolvimento diários por mais de vinte gerações” (Enlightening Uniqueness.pdf por Barovier&Toso)
Há mais de mil anos, os frágeis segredos da fabricação de vidro artístico permanecem em Murano. A família Barovier atualmente abriu as portas de seus ateliês a escultores, pintores, designers e arquitetos, iniciando colaborações definidas pelo estilo da empresa que une a tradição veneziana à avançada pesquisa internacional aplicando diversas técnicas para criar com esmero obras artísticas de requintado bom gosto. Um estilo único que Ercole passou a Angelo Barovier, que o passou a Jacopo Barovier mantendo viva a história e o legado de família para além de seu tempo.

Fontes de pesquisa:
Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003).
Leah Kristie – The World’s Oldest Family Companies (Family Business Magazine, Dec 15, 2009)
David Pilling – Building a Future On the Past (Financial Times, Oct 19, 2007)
Giulio Lorenzetti, Barovier, in Enciclopedia Italiana, Roma, Istituto dell’Enciclopedia Italiana, 1930.
Gallo R, Contributi alla storia dell’arte del vetro di Murano, F. Garzia, 1953.
Gasparetto A, Il Vetro di Murano, dalle origini ad oggi, Neri Pozza, 1954.
Tosi A, La memoria del vetro: Murano e l’arte vetraria nelle storie dei suoi maestri, Marsilio, 2006.
www.henokiens.com
https://www.golcondarte.it/maestri-del-passato/la-fratelli-toso-un-affare-di-famiglia
https://www.storiadelvetro.it/wp-content/uploads/2018/05/Toso-Ivano.pdf
https://it.wikipedia.org/wiki/Vetro_di_Murano


