Família Dresler-Niederstein – Alemanha
The Coatinc Company – fundação 1502 d.C. – superfícies galvanizadas – Siegerland, Alemanha
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Do ápice à borda do desaparecimento, a fibra estoica da família Dresler-Niederstein, em Siegen, noroeste de Frankfurt, Alemanha, constrói um legado que galvaniza sonhos. A travessia de mais de 500 anos por crises, pestes, guerras e rupturas conjuga dimensão humana de laços de família com evolução socioeconômica e sustentabilidade ambiental.
Fundada em 1502 d.C., são 17 gerações sucessivas da empresa familiar mais antiga da Alemanha, uma representante do famoso “Mittelstand” (PME), a espinha dorsal que congrega 90% das empresas familiares e cerca de 60% da força de trabalho da maior economia da Europa.

Siegen, na região de Siegerland, é localizada em um dos vários vales ao longo do percurso do rio Sieg, circundada por montanhas, muitas delas – as não povoadas – cobertas por florestas em talhadia, uma prática de manejo ambiental que favorece a diversidade da vida selvagem. Essa é uma das regiões mineiras mais antigas da Europa, que guarda vestígios de mineração da época dos Celtas (500 a.C.), e ali, desde a Idade Média até os primórdios da era industrial, famílias empreendedoras processavam minério de ferro. Evoluindo de berço da mineração a setor fundamental para a economia local, a metalurgia era uma profissão altamente respeitada, uma vez que o ferro constituía matéria-prima essencial para todo tipo de ferramentas, bens industriais e utensílios de uso diário.

Em 1494, Heylmann Dresler tinha matrícula na guilda local como mestre ferreiro. Porém, é 1502 a data do documento oficial que registra o pagamento da taxa de 1 “Feuerschilling” (xelim de fogo) para uso de uma forja, estabelecendo as raízes do negócio familiar. Ao tempo da 2ª geração, a família já possuía suas próprias forjas, fabricava e negociava bens de consumo diário, logo progredindo para meios de transporte próprios e agregando a atuação como despachantes de carga. Os Dresler passaram a participar das instituições, na representação distrital e no Reichstag à época do Sacro Império Romano-Germânico, crescendo em importância a cada geração.
No século XVII, com Johannes Dresler, notável industrial e comerciante, sócio em várias forjas, havia membros da família em todas as instituições como juízes, párocos, diretores de hospitais, presidentes de câmaras de comércio e de indústria, de guildas e, por 200 anos, prefeitos da cidade. Influente pelos cargos públicos, a família projetou-se igualmente na esfera econômica. Porquanto seu patrimônio contava com o monopólio da fabricação de produtos pequenos e propriedade de minas, o negócio expandiu-se para a siderurgia e diversificou-se para a indústria têxtil, setor que com centenas de teares liderou por 100 anos.

Johann Heinrich Dresler III trouxe ao século XIX o pioneirismo de altos-fornos somado à expansão suprarregional com criação e aquisição de empresas, como uma laminadora em Kreuztal, convertida em siderúrgica, que motivou a mudança de sede para Kreuztal. Os filhos Heinrich Adolf e Friedrich Wilhelm herdaram a laminadora e adquiriram dois grandes terrenos em frente à fábrica onde, aninhada entre prados e bosques, construíram uma casa senhorial, a Vila Branca. Contudo, após 15 anos, a ruptura entre os irmãos levou Friedrich a construir outra residência para si, a Vila Amarela, enquanto Heinrich assumia o leme da 13ª geração. Foi a figura mais proeminente da empresa e criador da Siegener Aktiengesellschaft(SAG), iniciando o negócio de galvanização. Participou das guerras de 1866 e 1870/71 e dentre outras distinções, condecorado com a Cruz de Ferro foi eleito para o Reichstag ao final do século XIX.

Sucedido na gestão pelo filho Hans, este teve a vida profissional interrompida em 1915, alistado na Primeira Guerra Mundial, em que serviu até o fim em 1918 e perdeu um irmão. Retomou a administração da empresa, que liderou durante toda a Segunda Guerra Mundial até 1945. À ocasião, seu único filho contava 16 anos, não sendo habilitado a sucedê-lo nos negócios. Por destino, na guerra, em apenas 14 meses os três sobrinhos, filhos do irmão Carl, tiveram as vidas ceifadas.
Filha primogênita de Heinrich, Luise Dresler – irmã de Hans – era casada com o teólogo e pastor, Alfred Niederstein, o que criou o ramo Dresler-Niederstein. Tinha dois filhos e um deles, Werner, começara a trabalhar para a SAG ainda muito jovem, de modo que por descendência Dresler em linha direta, coube a ele suceder o tio no comando da SAG. Sua gestão também teve o signo da expansão, estabeleceu filiais, aquisições e construiu uma fábrica de galvanização de chapas metálicas perfiladas em linhas de bobina. O filho Klaus ingressou no negócio em 1971 e juntos iniciaram a internacionalização do grupo SAG.

Com a expansão, os desentendimentos entre acionistas emergiram como combustível para discórdias e desunião dentro da família, erodindo a estrutura de negócios. Em 1978 o grupo enfrentava graves dificuldades financeiras e a maioria dos acionistas decidiu vender integralmente o negócio, incluídas as cinco fábricas de galvanização, para Hoesch AG. Porém, por razões antitruste, a Hoesch foi autorizada a adquirir apenas quatro das fábricas, permanecendo a fábrica de galvanização Verzinkerei Becker – adquirida pela SAG em 1964 – com Werner e Klaus. De 2.800 funcionários e 500 milhões de marcos alemães em receita, após a venda restaram 60 funcionários e 5 milhões de marcos alemães em receita, e foi essa alavanca que pai e filho utilizaram para continuar o negócio da família.
Um aporte financeiro da britânica B.E. Wedge Holdings possibilitou a eles recomprar, em 1991, as fábricas que tiveram de vender treze anos antes, originando a The Coatinc Company Holding GmbH e o fato mais relevante: recentemente recompraram a participação dos 49% que detinha a parceira britânica. Resgatada, a empresa voltou a ser de capital 100% familiar, agora com Paul, 17ª geração, ao leme.
Proposta de reflexão sobre “corrosão e galvanização” em binômios:
- Poder e laços familiares
- Influência e valores
- Conformismo e persistência
“Não somos necessariamente muito grandes ou excessivamente ricos, mas somos ricos em experiência.” – Paul Niederstein.
Em 2018, o projeto de livro de Klaus Niederstein inspirou Paul a aprofundar-se na história e atividades empresariais. “Ao longo dos séculos – A crônica das famílias empreendedoras Dresler-Niederstein em 17 gerações”, apresenta em dois volumes, fartamente documentada e ilustrada, a história da família empresária entrelaçada à história econômica e industrial de Siegerland.

“Aprendi com meus ancestrais que o senso de equilíbrio, assim como a justiça e a persistência, são os valores fundamentais.” – Paul Niederstein.
Os verdadeiros valores são tanto um compromisso quanto uma promessa. O acabamento de superfície é realizado com o objetivo de garantir a sustentabilidade e a preservação do valor, enquanto a preservação do valor visa servir às pessoas.
“Sem galvanização não há aço durável, sem aço não há indústria, e também não há energias renováveis. Sem isso, não há linhas de transmissão de energia, usinas solares, turbinas eólicas, e a transição energética está perdida.”– Paul Niederstein.
Com um modelo de negócios que privilegia patrimônio líquido robusto e caixa estável, o grupo possui hoje 22 unidades, incluindo afiliadas na Europa, México e EUA, e 2.200 colaboradores.
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A prefeitura de Kreuztal adquiriu a área de bosques com as duas Vilas – Branca e Amarela – e abriu o espaço ao público para lazer e centro cultural, formando o Parque Dreslers, que mantém vivo o patrimônio da cidade.

Fontes
Livros
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
Artigos
- www.nzz.ch/wirtschaft/deutschlands-aelteste-familienfirma-warum-die-siegener-stahldynastie-nach-knapp-500-jahren-fast-am-ende-war-und-heute-doch-wieder-floriert-ld.1544454, por Michael Rasch, 21 de maio de 2020.
- https://www.handelsblatt.com/unternehmen/mittelstand/familienunternehmer/serie-aelteste-familienunternehmen-warum-deutschlands-aeltestes-familienunternehmen-in-der-energiewende-gebraucht-wird/28788518.html, por Anja Müller, 6 de novembro de 2022
Reportagens
- https://wirsiegen.de/2023/10/ueber-die-zeiten-hinweg-die-geschichte-der-unternehmerfamilien-dresler-niederstein-im-siegerland/381410/
- https://www.businessday.co.za/bd/companies/2020-11-09-centuries-of-crisis-management-stand-german-firm-in-good-stead
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