Família Houshi – Japão
Ryokan Houshi – fundado em 718 d.C., Komatsu, Japão
Pousada tradicional de águas termais
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Monte Haku, ou Hakusan, é, junto com o Monte Fuji e o Monte Tate, uma das Três Montanhas Sagradas mais veneradas do Japão. Trata-se de um estratovulcão dormente na ilha de Honshu, localizado no centro de um Parque Nacional que leva seu nome.
Durante o período Nara (710–794), quando o budismo se tornava popular no Japão, muitos monges buscavam alcançar um estado de perfeição moral e espiritual pela prática do ascetismo. Um desses monges foi o famoso Mestre Taicho, o primeiro grande mestre a escalar o Hakusan até o seu cume.
Reza uma antiga lenda que, em suas práticas ascéticas, um ano após alcançar o topo do Hakusan, Mestre Taicho recebeu, em sonhos, a visita do Daigogen, a deidade do Monte Haku. Em sua aparição, a divindade Hakusan Daigogen instruiu Mestre Taicho a encontrar, abaixo do sopé do Monte Haku, em uma vila chamada Awazu, uma fonte termal com poderes milagrosos. No entanto, revelou-lhe:
“Ninguém sabe dessa fonte sagrada. Desça a montanha e trabalhe junto com os moradores para desenterrá-la, para que ela possa ser usada em benefício do povo durante muitos anos.”

A fonte termal foi encontrada. Mestre Taicho determinou a seu discípulo, Garyo Houshi, que construísse e administrasse uma pousada no local para acolher pessoas em busca de cura para suas enfermidades. Desde então, após seu primeiro administrador — o primeiro Zengoro —, a pousada denominada Houshi é administrada, geração após geração, por sua família. Todos os patriarcas adotaram o nome de Zengoro Houshi. Atualmente, o ryokan (hotel tradicional japonês) encontra-se sob a gestão da 47ª geração da família.
Conhecendo essa história e tendo Zengoro Houshi como referência, é inevitável perguntar:
- Existe algum segredo para manter uma sobrevivência multigeracional tão fenomenal?
- Quais são os desafios enfrentados em termos de sucessão e como garantir uma liderança estável por mais várias décadas?
- Quais exemplos inspiradores podem ser adotados por outras empresas familiares?
“Nada pertence a mim. Somos responsáveis por manter e passar adiante para a próxima geração.” Zengoro Houshi.
Assista à entrevista com Zengoro Houshi no canal da Stewardship Asia Centre.
À medida que se avança no tempo, é necessário encontrar maneiras de integrar os valores próprios à família, como podem ser o amor entre pais e filhos, a igualdade entre irmãos, os afetos e outros elementos emocionais, que podem aparentemente apresentar relevância sobre os resultados, os processos, a racionalidade e o negócio. Desse, o negócio, o valor é determinado por variáveis que visam a eliminar os desperdícios, as irracionalidades, as irregularidades, a fim de gerar lucro equacionado por análise de dados, critérios de organização e uso da tecnologia mais atual.
Portanto, torna-se vital conceber estratégias que atendam esses paradoxos mencionados para construir uma empresa familiar que sendo promissora atravesse gerações. Adicionalmente, é de se esperar que se desenvolvam ações para o aprimoramento das habilidades dos membros da família e dos funcionários, com o objetivo de assegurar a melhor comunicação possível entre família e empresa, de modo a preservar a consistência de ambas as visões e pelas quais a empresa se desenvolva e funcione sempre em bases sólidas.
No âmbito da governança familiar, é indicado criar o livro que explique e mantenha viva a história da família, além de dar a conhecer e resgatar os primórdios que alicerçaram a organização empresarial. Declarar claramente a missão da família, prescrever e documentar um protocolo de famíla, estabelecer agenda de reuniões da família, encontros sociais periódicos, implementar ações educativas para formar novos líderes para as próximas gerações.
“Temos que superar dificuldades, temos que assumir a responsabilidades e nos adaptar à mudança. Não fugir dela, mas desafiá-la. Desafiar a mudança é nossa responsabilidade.” Zengoro Houshi.

Essa afirmação, proferida pelo atual patriarca Zengoro Houshi, induz à reflexão sobre quais são as vias de cumprir com a responsabilidade a frente de uma empresa familiar centenária, enquanto, e ao mesmo tempo, existe uma lícita procura de satisfação individual. Especialmente após a geração boomer, e cada vez mais, esse é um valor pessoal que se aprendeu a defender. Nas empresas familiares longevas, é necessário enfrentar o conflito entre as responsabilidades individuais e coletivas.
Uma vez que a empresa familiar é uma sociedade econômica, seu negócio sempre estará exposto a fatores temporários, sejam ordem interna ou externa, e por isso deverá desenvolver estratégias para enfrentar e responder à impermanência. Ao mesmo tempo, como empresa familiar é vital que siga transmitindo o legado às gerações vindouras, o que exige adotar modelos de governança que reflitam perspectivas de continuidade a longo prazo.

“É importante que a motivação surja de dentro dos sucessores.” Zengoro Houshi.
O perfil ideal dos líderes dessas empresas centenárias é o de quem genuinamente é atento e afetuoso em relação aos vínculos familiares. Contudo, esses novos líderes precisam continuar a administrar o negócio tendo como objetivo o sucesso, devem pensar “fora da caixa” e implementar planos estratégicos de longo prazo, que considerem as gerações futuras de seus filhos e netos, sem, porém, perder de vista as tendências e mudanças de curto prazo da sociedade.
Eles, esses novos líderes, não podem hesitar em deliberadamente descontinuar uma estrutura vigente, possuindo em igual e razoável dimensão, as necessárias habilidades de planejamento e inteligência emocional. Gentis e compassivos, sim, mas sem abdicar de atuar racional e eficazmente. Todas as empresas familiares precisam líderes e familiares com aptidão de lidar com os paradoxos de questões que podem, a princípio, mostrar-se contraditórias .
Para desenvolver seu próximo sucessor, Houshi se encontra em um momento crucial, em que necessita moldar soluções empresariais criativas, para que seu negócio de 1300 anos siga funcionando prosperamente. Deverá avaliar os ativos e os valores transmitidos de geração em geração, a fim de manter a família unida, forte, com visão unificada e coerente com um futuro em prol do negócio.
Uma empresa familiar é complexa e difícil, mas esses são fatores que a fortalecem e tornam mais viável sua continuidade.
Fontes:
– Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
– William T. O`Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003).
– Leah Kristie – The World’s Oldest Family Companies (Family Business Magazine, Dec 15, 2009)
– David Pilling – Building a Future On the Past (Financial Times, Oct 19, 2007)
www.henokiens.com
www.guidemygrowth.com
www.stewardshipasia.com.sg


