Família Kurokawa – Japão
Toraya – fundação 1526 d.C. – Confeitaria – Tóquio, Japão
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Desde 1526 d.C., a família Kurokawa faz as pessoas felizes, seja na Corte Imperial do Japão, nas lojas ou em vendas on-line para o mundo todo. A Toraya, a empresa da família, é a mais antiga confeitaria do mundo e o estado da arte na confecção do wagashi, tradicionais doces japoneses baseados no princípio de agradar aos cinco sentidos: aparência, sabor, textura, aroma e som.
Hoje, com a 18ª geração no comando, sua linha de sucessão é regida por uma regra clara, não escrita: apenas uma pessoa da família Kurokawa administra a empresa a cada geração. Nenhum irmão ou parente, além do chefe da família, trabalha para a Toraya, nem usa esse nome em outra instituição.

Kano Hideyori (1501–1557) – Muromachi – período Azuchi-Momoyama – Tokyo National Museum
O Japão da segunda metade do séc. XV era um complexo cenário, onde a figura divina do imperador, como chefe supremo, tinha representação cerimonial, enquanto os xoguns, com alto poder militar, exerciam um papel absolutista, sem controle central. Nesse contexto, os clãs dominantes dos xoguns estendiam sua zona de influência aos eventos políticos e às tendências culturais.
A era dos xoguns Ashikaga, conhecida como período Muromachi, foi um tempo de instabilidade e conflitos que colapsou o poder do xogunato, mergulhando o país em caos social e guerras civis por um século. Entretanto, apesar da turbulência social e política, foi um tempo inovador na economia e nas artes, dando os primeiros passos para modernizar redes de comércio, transporte e urbanismo. Retomando contato com a China, enriqueceu e transformou o pensamento e a estética em todos os aspectos da vida nacional, desde o governo e o comércio até a educação e as artes.
Kyoto influenciava a política e a cultura do país sob os xoguns Ashikaga, que construíam vilas particulares, servindo de cenários ao desenvolvimento das artes e da cultura. Pelo hábito de beber chá, oriundo da China séculos antes, formou-se um grupo de homens de elevada cultura que, sob influência dos ideais Zen, estabeleceu os princípios da arte cerimonial do chá, o chanoyu, que envolve – em seu nível mais elevado – paisagismo, arquitetura, design de interiores, caligrafia, pintura, arranjo floral, artes decorativas e preparo de alimentos.

Nesse tempo, Enchu Kurokawa fundou a Toraya, em princípios do séc. XVI. Dado que, em registros mais antigos do reinado de Goyozei – entre 1586 e 1611 –, a Toraya já era fornecedora de longa tradição da Corte Imperial, e apenas empresas com grande habilidade e prestígio social por ao menos duas gerações podiam prestar serviços à Corte Imperial, admite-se que a Toraya tenha sido constituída ao menos 60 anos antes. O certificado de compra do local para a loja, datado de 1628, e registros de vendas mostram que, no séc. XVII, os negócios haviam prosperado e a Toraya era renomada entre senhores feudais e figuras proeminentes.
O Grande Incêndio arrasou Kyoto em 1788, reduzindo a cinzas 80% da cidade, inclusive o Palácio Imperial e a Toraya. Da noite para o dia, Mitsutoshi Kurokawa viu-se à frente de um negócio destruído em uma cidade com a economia arruinada. Para reerguer a empresa, empreendeu a reforma da loja em precárias condições e formulou um conjunto de regras que estabelecia padrões, delineando atitudes básicas, modo de pensar e código de conduta que os funcionários deviam adotar – regras essas ainda aplicáveis e vigentes hoje.

O “Código de Regras” estabelecido por Mitsutoshi (9ª geração)
O final do período Edo foi marcado por turbulência política e transferência da capital de Kyoto para Tóquio, em 1869. Fornecedora da Corte Imperial por longa data, a Toraya enfrentou a ponderação crucial entre permanecer em Kyoto ou mudar para Tóquio. Decidiu manter a loja de Kyoto e continuar servindo a família imperial, estabelecendo-se também em Tóquio .
Em 1º de setembro de 1923, a terra foi sacudida como nunca antes no Grande Terremoto de Kanto. Os abalos secundários provocaram tempestades de fogo sobre Tóquio, e do armazém da Toraya restaram apenas as colunas; entretanto, a fábrica escapou da destruição. O desastre levou Takeo Kurokawa a reavaliar o modelo de vendas, que consistia em esperar pelos pedidos para produzir apenas as quantidades solicitadas, percebendo que ele deixara de ser sustentável. Partindo da necessidade de expandir as vendas, começou a oferecer produtos na loja, enquanto uma equipe, levando cartões mimeografados e folhetos com a lista dos doces, visitava as casas dos clientes para receber pedidos, bem como empresas e instituições bancárias.
Com o sentimento de guerra e a economia controlada, a partir de 1938 a Toraya enfrentou escassez de matéria-prima, teve de reduzir a produção e contratar mulheres em substituição ao crescente número de homens convocados pelo serviço militar. Na noite de 25 de maio de 1945, uma horda de bombardeiros B-29 desceu sobre Tóquio, resultando em incêndios na área da fábrica da Toraya, que foi completamente destruída. Graças aos esforços desesperados das funcionárias da loja durante o ataque, os documentos vitais foram retirados da fábrica e protegidos na loja, sendo assim poupados do desaparecimento. Com grande número de funcionários mortos em combate, escassez de matéria-prima e condições sanitárias precárias, o pós-guerra foi o período mais difícil da história da Toraya. Para seguir em atividade, criou produtos além da confeitaria, abrindo cafeterias onde oferecia café, chocolate quente, sorvete e pratos populares. Tão logo a produção da confeitaria em larga escala voltou a ser viável, reformou as lojas, reabrindo-as como confeitarias.

“A história se constrói com trabalho honesto e senso de responsabilidade” – Mitsuhiro Kurokawa (17º presidente da Toraya)
A história da Toraya, provoca algumas reflexões:
- A perspectiva comercial globalizada é compatível com a forte tradição familiar?
- Como ampliar a base comercial e manter o bem-estar da empresa?
- A imagem como marca de nicho sobrevive à expansão global?
“Ao permitir que as habilidades únicas de todos que trabalham na Toraya floresçam, esperamos enriquecer tanto a organização quanto a sociedade e o meio ambiente em geral” – Mitsuharu Kurokawa (18º presidente)
A sustentabilidade do negócio familiar requer sensibilidade às mudanças do novo. Na Toraya, o atual presidente trabalha uma nova visão, com perspectiva de 10 anos à frente, com o wagashi apreciado por todo o mundo. Alcançar esse objetivo requer busca contínua da essência do wagashi delicioso.
“A chave para manter a longevidade de um negócio familiar não é buscar lucros em uma perspectiva de curto prazo, mas acreditar firmemente que todos os envolvidos devem ser felizes” – Mitsuharu Kurokawa
Ao planejar maneiras de expandir os negócios, Mitsuharu compreende ser necessário definir como a empresa se relacionará com sua família e identificar o impacto da posição da família no mais alto escalão decisório, e daí para a grande “família Toraya”, que inclui funcionários de longa data.
““A espinha dorsal dessa tradição e criatividade é a gestão de qualidade superior” – Mitsuharu Kurokawa
Com 80 lojas no Japão e uma em Paris, a Toraya decidiu adotar uma política comercial de não expandir mais e focar na qualidade – uma política que contribui para manter a imagem do wagashi de alta qualidade. Cuidando desde o fornecimento de ingredientes até a ponta de venda, aplica os mais elevados padrões de qualidade a cada processo.
“Proporcionar aos clientes a alegria de saborear deliciosos doces japoneses”, filosofia transmitida desde a fundação até os dias atuais, sustenta uma travessia singular.

Fontes de pesquisa
Livros
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
Entrevistas
- “A company working on Japanese premium”, interview with Mitsuhiro Kurokawa, President and CEO of Toraya Co., Ltd., to Editor-in-Chief Mio Shimamura Premiun for Premium Japan Award– Feb 13, 2018
Sites
- www.global.toraya-group.co.jp
- www.henokiens.com
- www.hbs.edu
- www.metmuseum.org
- www.wagashi.or.jp
- www.wikipedia.org
Case Study
- “Toraya” – Cohen, Lauren, and Akiko Kanno – Harvard Business School Case 222-068, February 2022


