Família Marinelli – Itália
Pontificia Fonderia di Campane Marinelli – fundada em 1040 d.C., Agnone-Itália.
Fundição de sinos
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A 220 km de Roma, em Agnone, nascem os sinos da Fundição Marinelli. Segunda empresa familiar mais antiga do mundo é a única sobrevivente das famílias que na Idade Média fundiam sinos artesanais e transmite, desde 1040, essa arte ancestral. Atualmente tem a 26ª geração à frente do negócio, com a 27ª já preparada e atuante.
Dois irmãos da 26ª geração, com as mãos protegidas por grossas luvas, seguram, cada um, uma longa haste de metal. Pasquale remove as brasas que mantém quente um canal de tijolos, Armando em um ímpeto abre o alçapão do forno e o bronze, liquefeito a 1.200 graus, escorre pelo canal de tijolos. Com destreza, eles usam as hastes para empurrar o metal fundido, uma liga de 67% de cobre e 33% de estanho, para dentro de um molde enterrado no chão de terra.

Durante os três meses anteriores, foi desenvolvido o processo de preparação. A primeira decisão foi a nota musical que o sino tocaria, um cálculo complexo com base nas medidas de diâmetro, altura e espessura da obra. Definida a nota, foi construído o molde em camadas de argila para formar a “alma” do sino e criadas aplicações em relevo para ornamentar a obra. A preparação culminou nessa tensão do fogo e metal liquefeito fluindo em direção ao molde pelo empuxo dos Marinelli, e quando o molde foi todo preenchido, o abraço dos irmãos selou o nascimento de mais um sino.
Após o resfriamento o sino é erguido por uma polia para fora da cova, limpo com escovas metálicas e polido por artesões experientes, revelando o brilho do bronze. Recebe então o acessório mais importante, o badalo, e tem sua nota musical afinada. O badalo, uma pequena obra de arte singular, tem características físicas, geométricas e técnicas específicas, que fazem de cada sino Marinelli uma obra irrepetível. Na Europa, a partir do século XVII, eram criadas escalas de sino relacionando a ligação das proporções de cada sino a uma contraparte musical.
Reflexões contemporâneas
A longevidade dos Marinelli levanta algumas questões:
- Como conciliar tradição, arte e sobrevivência em tempos de automação e inteligência artificial?
- O que motiva uma nova geração a seguir em um negócio artesanal, sem escala industrial?
- Até onde pode ir a força de um legado familiar?

A história dos Marinelli atravessa episódios dramáticos, como pestes, fome, guerras, invasões, crises. Durante a Segunda Guerra Mundial, a fundição parou porque o bronze era requisitado para armamentos. O Palazzo Marinelli, residência da família e sede da fábrica, foi ocupado por tropas nazistas devido a sua localização estratégica. No pós-guerra, a Fundição ressurgiu com a encomenda dos sinos da Abadia de Montecassino em reconstrução após ser destruida por bombardeios durante a guerra. Pouco depois, em 1950, um incêndio reduziu a fundição a cinzas, obrigando a reconstrução completa nos arredores de Agnone.
Hoje, a família enfrenta novos desafios: a crise da fé, que reduz a construção de igrejas, e a pressão de novas tecnologias. Mas mantém viva a tradição, recusando-se a industrializar um ofício visto como patrimônio artístico.
“Se rompermos com o passado, é como se estivéssemos começando um novo negócio. Não seríamos considerados pioneiros dessas novas técnicas, seríamos reconhecidos como aqueles que romperam com um legado milenar.” — Armando Marinelli
O caso Marinelli também mostra que o conceito de sucesso empresarial nem sempre é o mesmo. Diferente do modelo americano, em que crescer, multiplicar e dominar o mercado é regra, muitas empresas familiares europeias e asiáticas se guiam por outro princípio: preservar o projeto ancestral, transmiti-lo intacto e mantê-lo vivo para a geração seguinte.
Ninguém vai para a capa da Forbes produzindo 50 sinos por ano e empregando 20 pessoas. Mas, na terra do Renascimento, onde Michelangelo, Donatello e Bernini moldaram o bronze, romper com a tradição seria uma heresia artística.

“Quando você tem 18 ou 20 anos, quer fugir desse lugar, mas depois percebe que seu trabalho permite conhecer o mundo.” — Pasquale Marinelli
Embora grande parte da produção seja destinada a templos católicos, os sinos Marinelli também tocam em instituições seculares. Estão na sede da ONU em Nova Iorque, no Rotary em Evanston (EUA), em campos de golfe no Japão e em memoriais públicos em diversos continentes.
O Museu Histórico da Fundição Marinelli, em Agnone, preserva essa memória e atrai turistas. Ali também se produzem sinos menores de parede e de mesa, além de peças de bronze personalizadas — obras que mantêm o ofício vivo e o ampliam além da esfera religiosa.

Fontes:
– Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
– William T. O`Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003).
– Mazes and Labyrinths eBook Kindle – by W. H. Matthews, [1922]
– The etruscan or italian labyrinth, Diana Schoberg
https://campanemarinelli.com/en/our-familys-artists/
www.henokiens.com
https://en.wikipedia.org/wiki/Pontificia_Fonderia_Marinelli
https://www.rotary.org/pt/marinellis-make-special-centennial-bell-rotary
https://www.dw.com/es/marinelli-las-campanas-m%C3%A1s-antiguas-del-mundo/video-55988084
https://oef.ipleiria.pt/2009/09/15/nova-curiosidade/


