Família Raventós – Espanha
Raventós i Blanc – fundação 1497 d.C. – vinhos espumantes – Sant Sadurni d’Anoia, Espanha
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Estabelecida em 1497 d.C., a propriedade da família Raventós i Blanc, em Sant Sadurní d’Anoia, no Alt Penedès (Catalunha), é a empresa mais antiga da Espanha e figura entre as linhagens vitivinícolas mais longevas da Europa.
21 gerações mantém os vinhedos e bosques como uma entidade completa, preservando sua filosofia centrada na relação do homem com a natureza e produzindo vinhos puros e biodinâmicos reconhecidos pela alta qualidade e elegância.
Sant Sadurní de Subirats – povoado às margens da estrada de Barcelona à Tarragona – desenvolveu-se mais rápido que seu entorno e, incorporado à Coroa de Aragão em 1493, foi reconhecido como município em 1764, adotando a denominação atual associada ao rio Anoia que esculpiu a depressão Alt Penedès.

As grandes cadeias de montanhas da Europa, entre elas os Pirineus, resultaram da colisão de placas tectônicas do continente e da África, há 40 milhões de anos. Na Catalunha, milhões de anos depois, mudanças na direção de movimento dessas placas criaram depressões no fundo do mar e vales na parte emersa, formando um grande estuário no Mar Mediterrâneo. Durante a primeira época do Neógeno – entre 6 e 5,5 milhões de anos – o evento messiniano causou a dessecação parcial do Mediterrâneo e, sob seu clima seco, a sequência de outros eventos secou quase por completo a bacia, fechando o estreito precedente que ligava o Mediterrâneo ao Atlântico.
Há 5,33 milhões de anos, o dilúvio zancliano imundou a bacia e as águas do Atlântico reabasteceram o Mediterrâneo. Logo as inundações restabeleceram a conexão que é o Estreito de Gibraltar, pondo fim às crises de salinidade. Depois, em condições climáticas de maior umidade, as águas dos rios vindos do continente carregavam materiais e sedimentos, que, depositados no fundo do mar, misturavam-se a conchas, ostras e outros organismos. Nesse cenário, o rio Anoia escavou intensamente a terra, expondo sedimentos fossilíferos encobertos por mais de 16 milhões de anos e, em épocas em que não escavou, depositou camadas de sedimentos siltosos e cascalhosos.
Documentos históricos datados de 1497 registram as terras em posse da família Raventós por onde passava o Anoia, revelando que cultivavam uvas e produziam mosto com fins comerciais. Em sua passagem, o rio expôs terras com enorme quantidade de fósseis marinhos, terrenos fossilíferos e camadas de sedimentos, que fazem parte dos solos de Raventós, em que encontramos arenitos, margas, calcarenitos, grande presença de fósseis marinhos, além de areias ricas em quartzo, mica e fragmentos de rochas metamórficas e ígneas. Isso somado à profundidade, que assegura excepcional reserva hídrica, confere peculiar caráter aos seus vinhedos.

Em 1551, foi criado naquela região o vinhedo de Jaime Codorníu, pioneiro no uso de implementos e maquinário na produção de vinhos, constando de seu testamento detalhes que realçam a importância da viticultura.
Anna era a última representante e única herdeira do clã Codorníu, quando se casou em 1658 com o viticultor Miguel Raventós e assim, Codorníu passou à propriedade e administração da Raventós. Como espanhóis carregam os sobrenomes de ambos os genitores, os descendentes do casal levam o sobrenome Raventós e, ao longo de dois séculos, as gerações seguintes administraram as propriedades e expandiram os vinhedos até o nascimento de Josep Raventós Fatjó. Ainda jovem, viajou pelo mundo e retornou à Espanha determinado a criar um grande espumante, com tudo que aprendera na região de Champagne. Após anos de experimentos, em 1872, elaborou o primeiro espumante espanhol pelo método champenoise, de segunda fermentação em garrafa, denominado cava, que recebeu grande aceitação.
A alta demanda pelo cava exigia rápida expansão da produção e foi Manuel Raventós Domènech, o filho à frente do negócio, quem decidiu produzir somente cava e ordenou a construção de uma nova fábrica. Enólogo, estabeleceu em 1890 o blend somente de uvas autóctones de Penedès: Macabeu, Xarel-lo e Parellada, praticado até hoje, além de desenvolver e selecionar as melhores castas dessas vinhas, que constituem a base dos vinhedos até os dias atuais. Em 1887, a filoxera arrasou as vinhas e, a exemplo da França, em seu combate os produtores replantaram vinhas com cepas americanas imunes à praga, o que permitiu retomar o crescimento consistente da produção a partir de 1893.

A 18ª geração com Manuel Raventós i Fatjó atravessou um longo período de crises, consequentes às guerras da primeira metade do séc. XX. Resistiu e sobreviveu para, na década de 1960, experimentar uma pujante expansão. Herdeiro de Raventós e de Codorníu, Josep Maria Raventós i Blanc, influente à época como enólogo e diretor de qualidade, foi o criador e promotor da DO Cava, que aspirava a resgatar a ligação do homem com a natureza para fazer espumantes com qualidade de rivalizar com os de Champagne. Entretanto, sua visão de futuro conflitava com a do ramo familiar que focava escalada de produção mirando grandes mercados – que anos depois levou à venda de 80% de Codorníu, incluindo a casa ancestral, a investidores estado-unidenses
Josep Raventós, empenhado em assegurar prestígio ao cava, retirou-se das tensões familiares em 1982 e fundou sua própria vinícola – Raventós i Blanc. A matriarca do clã seguiu morando na ancestral Casa Codorníu e já passando de 90 anos subia à Raventós para passear pelos vinhedos com o filho e os descendentes. Enólogo talentoso, ele conseguiu realizar o coupage almejado em 1986, vindo a falecer 8 dias depois de ataque cardíaco.
O projeto passou para o filho Manuel, que imprimiu vigor à fase inicial do projeto, porém, em poucos anos, a inexperiência em aspectos cruciais da produção e estratégias de distribuição levou à ruína. Teve que vender parte das terras da propriedade histórica.
Algumas reflexões contemporâneas inevitáveis passam por:
- desafios e responsabilidades da tradição familiar
- renúncia a projetos individuais para manter o legado
- revigorar as raízes

“Morava em Nova York e a distância me fez valorizar muito mais o potencial da minha terra natal.” – Pepe Raventós.
Pepe Raventós, filho de Manuel, era jovem e dedicado a projetos sociais em Nova York. O pedido de um tio para ajudar o pai, um forte senso de dever e desafios empresariais o fizeram assumir o comando da vinícola e o desafio de manter a tradição familiar. Visionário tenaz em descoberta tardia de amor ao terroir, apostou em produzir espumante de altíssima qualidade feito exclusivamente de uvas espanholas, e resgatar uma variedade quase extinta que se tornou a joia de seus vinhos.
“Estávamos em modo de sobrevivência nos primeiros anos e o que eu tinha que fazer era vender” – Pepe Raventós.
A tormenta financeira foi superada e juntos, Manuel, o pai, e Pepe, o filho, expandiram os mercados internos e externos. Produzem vinhos cuidadosamente elaborados, que colocaram Raventós i Blanc entre as 100 melhores vinícolas na lista da Wine & Spirits em 2023, sendo a única produtora de espumante da Catalunha nomeada.
“Eu queria voltar para casa, para a minha terra, para as minhas raízes, e para trabalhar as vinhas.” – Pepe Raventós.
Moram na propriedade histórica de Raventós, onde uvas são colhidas à mão, seguindo o legado dos métodos artesanais no cultivo de vinhedos, olivais, amêndoas e pequenos bosques que geram microclimas.

“Com os anos me dou conta de que há uma energia especial neste espaço, que certamente está vinculada à tradição ancestral” – Pepe Raventós.
Fontes de pesquisa
Livros
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
- Grant Gordon e Nigel Nicholson – Family Wars (Kogan Page, 2008)
Entrevistas
- Inês Salpico, para revista Decanter, fevereiro 2025
https://www.decanter.com/premium/pepe-raventos-the-renegade-traditionalist-549471/ - David G. Maciejewski, para jornal El Español, setembro 2024
https://www.elespanol.com/reportajes/20240901/pepe-raventos-sucesor-codorniu-fabrica-vino-rivaliza-elite-mundial-pago-agricultores/881162172_0.html - Alissa Bica, para revista Wine & Spirits, agosto 2022
https://www.wineandspiritsmagazine.com/inside-the-tasting-reports/sparkling-wines/pepe-raventos/ - Mar Galván, junho 2016
https://lagacetadelvino.com/nuestras-firmas/pepe-raventos-el-linaje-de-una-familia-de-viticultores-parte-ii/
Reportagens
- The prince of the Penedès
https://www.skurnik.com/an-interview-with-pepe-raventos-the-prince-of-the-penedes/ - Conhecendo Pepe Raventos, CEO da Raventós i Blanc
https://www.decantalo.com/us/en/blog/getting-to-know-pepe-raventos-managing-director-of-raventos-i-blanc-n7140?srsltid=AfmBOoqVYZP_-k_GrSG8ezt9nPUWEgytV0zaEQlS9dWHpl0sKOHl3oRp - Pepe Raventós: “Los espumosos españoles están lejísimos de donde estarán” -Revista del Vino
- An Interview with Pepe Raventós: The Prince of the Penedès -YouTube
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