Família Faber-Castell, Alemanha – Parte Segunda
A.W. Faber-Castell GmbH & Co., fundação em 1761 d.C., instrumentos de escrita – Stein, Alemanha
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O destino aplicou “xeque ao rei” ao plano sucessório do Barão Lothar von Faber, como vimos na Parte Primeira. Em resposta, ele movimentou a Dama em “xeque perpétuo”. A Baronesa Ottilie von Faber, esposa, parceira e confidente, conhecia todos os processos administrativos, industriais e comerciais e era dotada de inteligência e diplomacia para lidar com situações delicadas.
Em seu testamento, Lothar a nomeou herdeira e testamenteira, certo de que ela administraria o legado segundo seu propósito e seus princípios de valor. Após sua morte, em 1896, a viúva, investida dos poderes por ele outorgados e fiel guardiã de sua visão futura, cumpriu rigorosamente o arcabouço de suas vontades, construído a partir de cinco princípios determinantes para o trinômio família-propriedade-patrimônio:
- a extensa propriedade privada onde a família vivia, com castelo e jardins paisagísticos no entorno, estabelecida por Lothar como uma Fundação familiar, passaria à propriedade do descendente masculino mais velho sob o dever de manter esse patrimônio, indivisível e inalienável, para herança das gerações futuras;
- caso a linhagem masculina fosse extinta sem nenhum descendente homem, a Fundação familiar passaria à propriedade da filha mais velha, que, em tal caso, deveria necessariamente se casar com um nobre;
- o sobrenome “Faber” deveria ser mantido em qualquer circunstância futura, fosse qual fosse a condição;
- a empresa A.W. Faber, não fazendo parte da Fundação familiar, passaria integralmente a ser de exclusiva propriedade da Baronesa Ottilie von Faber;
- a administração da empresa seria transferida para mãos de antigos funcionários leais, capazes de preservar os valores e princípios de von Faber.

A Baronesa participara ativamente na educação e formação das três netas – filhas de Wilhelm –, e não havendo herdeiro masculino vivo, coube à primeira neta, Tilly (de Ottillie, em homenagem à avó), aos 19 anos e solteira tornar-se proprietária da Fundação familiar. Dois anos após, em 1898, teve seu casamento arranjado pela Baronesa com o Conde Alexander zu Castell-Rüdenhausen, descendente de uma família aristocrática dentre as mais antigas linhagens da alta nobreza germânica.
A Casa Castell com dois ramos – Castell-Castell e Castell-Rüdenhausen – tinha os primeiros registros documentados datados de 1057 e pertencia à Hochadel, a classe de casas nobiliárquicas que governaram estados soberanos do Sacro Império Romano-Germânico, depois os da Confederação Germânica e posteriormente os do Império Alemão. Linhagens consideradas como realeza receberam, no início do séc. XX, o título hereditário de Príncipe, sendo Ferdinand Friedrich, Príncipe de Castell-Castell, e Otto Friedrich, Príncipe de Castell-Rüdenhausen, os atuais chefes de cada ramo.
A riqueza de von Faber era portentosa, entretanto, no complexo sistema de leis do Império Alemão, o casamento de Tilly e Alexander representava uma ascensão demasiado ousada para a neta de um fabricante de lápis, enquanto para o Conde zu Castell-Rüdenhausen seria uma união morganática – casamento com alguém de classe inferior –, e a fábrica não poderia passar a seus descendentes, pois aos membros da Hochadel exercer uma atividade comercial constituía desonra social. Um impasse, outro “xeque ao rei”.
Uma articulação diplomática foi aprovada para a solução do dilema. Por ela, antes do casamento, o noivo renunciou ao seu título de nascimento, e Luitpold, Príncipe Regente da Bavária, concedeu-lhe um novo título hereditário de Graf (conde) incluindo o sobrenome Faber. Assim, foi criado o sobrenome Faber-Castell, designação unindo o legado empresarial Faber à tradição aristocrática Castell que foi – nas palavras da Baronesa – “o primeiro evento alegre em muitos anos, um raio de luz na vida da família Faber”. Após o casamento a empresa também adotou o sobrenome Castell, passando à denominação A.W. Faber-Castell, e criou novo logotipo combinando o lema da A.W. Faber desde 1761, com a imagem dos “cavaleiros em justas” presente no brasão Castell. Tilly e Alexander tiveram 1 filho e 4 filhas.
O Conde Alexander demonstrou talento e interesse por negócios tornando-se apoio para a Baronesa, que confiante em suas habilidades o nomeou sócio confiando-lhe a administração da empresa, em 1900. Após a morte da matriarca em 1903, Tilly herdou a empresa e manteve o Conde Alexander como sócio e no comando. Sob a liderança do Conde Alexander a A.W. Faber-Castell prosperou e adquiriu o reconhecimento internacional como referência de produtos de alta qualidade.

Contudo, a Primeira Grande Guerra afetou a vida do casal. A convocação do Conde Alexander, destacado para servir na Bélgica, causou longos períodos de separação provocando um distanciamento que levou Tilly a pedir divórcio em 1918, e, pelo fim do casamento, fazer do Conde Alexander o único proprietário da empresa. Após o divórcio Tilly casou-se outra vez e transferiu a Fundação familiar ao filho Roland von Faber-Castell. Também o Conde Alexander se casou por segunda vez, teve um filho e um ano antes de sua morte, retomou o título de nascimento Graf zu Castell-Rüdenhausen.
Quando faleceu em 1928, Roland, seu primogênito com Tilly, herdou o título de Conde von Faber-Castell e assumiu a empresa respeitando o plano traçado por Lothar. Entretanto, o jovem conde tinha um grande desafio à sua frente. Corriam tempos de grandes dificuldades econômicas e políticas na Europa, que procurava emergir da devastação deixada pela guerra, enquanto nos EUA a crença no progresso contínuo gerava especulação financeira desenfreada e eclodiu no crash de 1929, arrastando todo o mundo a uma crise global.
Particularmente, para a Faber-Castell a depressão econômica trouxe uma acentuada queda do mercado de lápis, contexto esse que levou o Conde Roland a firmar um acordo de cooperação, para utilização mais eficiente da fábrica e redução de custos, com a unidade alemã de Lápis Johann Faber – a empresa fundada pelo irmão de Lothar. Em bonanza passageira após algum tempo, ele adquiriu a Lápis Johann Faber, incluindo a subsidiária brasileira em São Carlos (SP), que viria a tornar-se a maior produtora de lápis de cor do mundo.
Irrompeu então a Segunda Guerra Mundial, sem deixar nada ou ninguém intocado pelo confisco de fábricas, propriedades, ou o que quer que pudesse ser ocupado. No pós-guerra, o Conde Roland dedicou-se a retomar as propriedades que haviam sido ocupadas e recuperar as subsidiárias confiscadas, e ainda mais, com foco e disciplina, conseguiu estabelecer novas fábricas, criar representações de vendas e ampliar a variedade de produtos, fortalecendo a presença internacional. Fiel ao plano traçado por Lothar, foi sucedido por Anton-Wolfgang, seu primogênito, com formação pela IMD, de Lausanne, que dirigia o Credit Suisse First Boston em Londres.
O Conde Anton-Wolfgang von Faber-Castell, 8ª geração, assumiu a direção do grupo em 1978 sendo CEO e representante da família por cerca de 40 anos, contexto em que comprou as participações de alguns de seus irmãos e dos seus filhos. Com o poder decisivo obtido, ampliou o portfólio de produtos e abriu novos mercados consolidando nas décadas seguintes a Faber-Castell como marca premium global. Visionário, não lhe escaparam aspectos ambientais, que passavam a ganhar maior importância, e para garantir o fornecimento sustentável de madeira, recurso primordial para a fábrica de lápis, na década de 1980 iniciou um grande projeto florestal no sudeste do Brasil, que permanece único até hoje. Nos anos de 1990, reorganização estratégica conjugada com reestruturação da linha de produtos definiu o status de marca premium global.
A luminosa liderança do Conde Anton-Wolfgang encerrou-se com sua morte em 2016, deixando 3 filhas, 1 filho e uma reflexão:
Até quando um plano sucessório bem delineado permite a uma empresa familiar resistir à travessia do tempo?
A 9ª geração da Faber-Castell não encerra a resposta, mas aponta para um novo capítulo da história de uma empresa de rica tradição que enfrenta confiante a dinâmica de desafios atuais em diálogo aberto entre família e empresa. Desde 2017, a A.W. Faber-Castell é administrada por um Conselho de Administração, em que participam:
- a família e os acionistas representados por 4 descendentes diretos von Faber-Castell – o Conde Charles e as Condessas Katharina, Victoria e Sarah – com um Managing Board;
- gestão corporativa a cargo do Managing Board formado por 3 executivos de carreira: CEO, CFO e CTO.
Como uma empresa familiar na nona geração, levamos nossa responsabilidade a sério. A sustentabilidade não é uma tendência recente para nós, mas sim parte integrante da nossa cultura de valores e um fator de sucesso comprovado na história da nossa empresa. – Condessas e Conde von Faber-Castell

Fontes
Livros
- Mark H. Daniell and Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
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