Família Swinkels, Holanda
Royal Swinkels, fundação, 1680 d.C. – cervejarias e maltarias – Lieshout, Holanda
🌐 www.royalswinkels.com – www.bavaria.com

No sul da Holanda, Eindhoven, berço da Philips e polo de design, tem como vizinha a pequena vila Lieshout, onde, em 1680, um mestre cervejeiro fabricava a “DeKerkdijk” seguindo uma receita de cerveja familiar. O pequeno negócio tornou-se a segunda maior cervejaria da Holanda, a maior do mundo inteiramente familiar e continua 100% independente com a sede ainda localizada na fazenda original da família.
Em 11 gerações a família de mestres cervejeiros e mestres malteiros formou uma cultura ancorada pela visão holística no longo prazo, que não é pensada em termos de anos; é pensada em gerações. Usando o espírito pioneiro como bússola, cada geração fez escolhas que promoveram o crescimento sustentável por meio da expansão e aquisições. Peer Swinkels comanda atualmente a Royal Swinkels decidido a “…transmitir uma empresa mais inteligente, saudável e sustentável para as futuras gerações”.

A gigante global preserva um legado empresarial que conta com 2 maltarias na Holanda, localizadas em Lieshout e Eindhoven, 9 cervejarias em diferentes locais na Holanda, Bélgica, Cuba, Geórgia e Etiópia, que produzem por ano 403.000 toneladas de malte, 8,9 milhões de hectolitros de cerveja e 600 hectolitros de refrigerantes. O portfólio ostenta 27 marcas de cerveja, dezenas de refrigerantes e maltarias para atender as várias especificidades do mercado que abrange mais de 150 países, fatura acima de € 1,12 bilhão e, com EBITDA de € 127 milhões, emprega 3.000 pessoas.

Cerveja, uma das mais antigas bebidas criadas pela humanidade, já era conhecida desde pelo menos 6000 a.C. por sumérios, egípcios, mesopotâmios e iberos. Datada de 1760 a.C., a mais antiga lei reguladora da produção, comercialização e consumo de cerveja estabelece direitos, deveres e ração diária de consumo da cerveja para classes socioeconômicas e sacerdotais da Babilônia.
Composta por mais de 90% de água, a receita da cerveja perfeita incluía malte de cevada e lúpulo até que, ao final da década de 1860, após a descoberta da fermentação por Louis Pasteur, passou a incluir Saccharomyces cerevisiae, a levedura da cerveja.
Escavações arqueológicas encontraram em Lieshout objetos que remontam à Idade da Pedra, vestígios de assentamentos agrícolas da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, além de restos de construções romanas. Os achados históricos permitem ainda determinar que a vila atual evoluiu a partir de um alódio franco (1) do séc. VIII. No final do séc. XII, o senhor de Lieshout doou o lugar à Abadia de Floreffe, que no séc. XIII estabeleceu ali uma cervejaria, onde os monges produziam cerveja – como usual na Idade Média – e que segue em pleno funcionamento até os nossos dias. Em 1698, entretanto, a Abadia passou a maior parte das terras da propriedade aos agricultores locais, o que trouxe fortalecimento da agricultura, horticultura e silvicultura e fez da região de Eindhoven um núcleo de famílias cervejeiras.
É nesse cenário que, no vilarejo Lieshout, o mestre cervejeiro Dirk Vereijken produzia e vendia cerveja, em sua propriedade na estrada Kerkdijk, conforme está documentado em registros de pagamento de impostos datados de 1680. Contudo, 1719 é a data em que a família formalizou a atividade como empresa. Não se pode assegurar se Dirk teve ou não filho varão, mas é certo que após sua morte o negócio passou à filha, seguindo-se a ela mais duas sucessões consecutivas de primogênitas mulheres. As novas famílias dessas sucessoras operavam com os sobrenomes dos maridos – Van Moorsel e Van Moorrees – mantendo, porém, localização e tradição da receita original. Então, em 1764, Brigitta, bisneta de Vereijken e herdeira Van Moorrees, casou-se com Ambrosius Swinkels e, após a morte da mãe, em 1773, o casal tornou-se o único proprietário integral da cervejaria, dando início à dinastia Swinkels.
Pelos anos seguintes, a família seguiu em crescimento orgânico, conciliando atividades agrícolas e produção de cerveja, até chegar a vez de JF Swinkels – Johannes Franciscus Swinkels – 4ª geração, que assumiu em 1884. Já era, então, casado com Cornelia Anna Verstappen, que o ajudava em todos os assuntos financeiros, administrativos, e acredita-se tenha influenciado as iniciativas de JF Swinkels em dedicar-se exclusivamente à cervejaria, transformando o negócio familiar em cervejaria internacional. Sob seu comando a distribuição ultrapassou as fronteiras de Eindhoven e Lieshout, gerando um crescimento que duplicou as vendas em uma única década. No início do séc. XX, para atender novas preferências de consumo que surgiam, ampliou a linha de produtos e procurou novos métodos de fabricação agregando ingredientes da mais alta qualidade.
Passada a Primeira Guerra, muitas cervejarias familiares haviam desaparecido; entretanto, a Swinkels continuava em expansão e a distribuição chegava às outras cidades e vilas do Brabante Norte, a ponto de fazer as instalações insuficientes para produção e levar à construção de uma nova e maior fábrica.
Em sequência na linha sucessória, assumiram seus três filhos – Frans, Piet e Jan Swinkels – sob a denominação Gebroeders Swinkels. Inovaram a receita original e criaram a Bavaria (2), nome adotado em referência à “Beiersch bier” – cerveja holandesa do tipo lager (baixa fermentação, ou estilo pilsener) – alterando inclusive a razão social para Bavaria NV. Muito apreciada, a nova marca conquistoxu os 4 maiores mercados da Holanda – Amsterdã, Roterdã, Haia e Utrecht –, expandiu a distribuição e a Cervejaria Bavaria teve que construir uma nova fábrica em 1933 (ainda em operação regular), além de sua própria fábrica de garrafas produzindo 2 mil garrafas/hora, e, logo 7 anos após, a Holland Malt, sua própria maltaria em Lieshout. Distribuíam 40.000 toneladas/ano, cobrindo todo o país, quando teve início a Segunda Guerra Mundial.

Nos anos de pós-guerra, o consumo da cerveja atingia níveis baixíssimos, então, em 1955, os Swinkels começaram a fabricar refrigerantes sob a marca 3-ES, nome em homenagem aos 3 gebroeders (irmãos) da 5ª geração. Demoraram em recuperar o volume de vendas anterior à guerra, o que somente ocorreu em 1959 e continuou ao longo da década seguinte, dobrando a produção.
A receita de cerveja perfeita reúne água, malte, lúpulo e levedura da mais alta qualidade. Água é mais de 90% da composição, sendo o fator primordial para a qualidade e o sabor. Um mercado altamente competitivo em que, entre os fatores extraordinários, são igualmente necessários ciência, habilidade e paixão. Quesitos aos quais a Swinkels corresponde inteiramente, incluindo sua própria fonte de água mineral em Eiffel-Ardennes – região entre Alemanha e Bélgica – extraída à profundidade de 200 metros, que vem purificada por um processo milenar de filtração natural.
A expansão internacional deu-se a partir de 1973 pelo sul da Europa e com o desenvolvimento de cervejas sem álcool chegou ao Oriente Médio em 1978. Sem depender somente da lager tradicional, e atendendo ao surgimento de diferentes preferências e novas ocasiões de consumo, a Bavaria tornou-se a marca mais tradicional da empresa que alterou a razão social para Swinkels Family Brewers.

Em 2019, recebeu de Sua Majestade o Rei Willem-Alexander a designação “Royal”, pelo 300º aniversário, com base na data oficial de 1719. A celebração teve a presença de Sua Majestade a Rainha Máxima em visita à cervejaria em Lieshout, quando conheceu as 6ª, 7ª e 8ª gerações da família Swinkels e conversou com vários funcionários. Afinal, em fevereiro de 2024, o nome da empresa foi simplificado para Royal Swinkels. A mudança atualizou não somente a identidade corporativa, como também o logotipo, que agora consiste em um escudo simbolizando o brasão de armas da família, uma coroa representando a designação Real e um “S” interpretado como um rio sinuoso encontrando seu próprio caminho no mundo. Reflete, assim, o espírito pioneiro e a identidade corporativa alinhada às ambições de sustentabilidade da empresa para as futuras gerações da Royal Swinkels, que em 2025 foi nomeada, pelo terceiro ano consecutivo, a cervejaria mais sustentável do mundo.
11 gerações de cervejeiros desde Dirk Vereijken até Peer Swinkels, 7ª geração da dinastia Swinkels, hoje no comando dessa potência econômica. Graduado em econometria, ele desenvolvia carreira na Unilever quando, atuando em um projeto para a entrada da Unilever no mercado asiático de macarrão instantâneo, a chama do empreendedorismo se acendeu e ele compreendeu que era isso o que queria fazer na vida. Refletiu longamente, ponderou alternativas e ingressou na cervejaria da família como responsável pelo marketing global e as unidades de negócios na França e na Itália.
“O sucesso da nossa empresa familiar ao longo da nossa longa história deriva da capacidade de nos reinventarmos constantemente. Tradicionalmente, estávamos focados principalmente na lager e tivemos que fazer uma transformação completa para um portfólio de cervejas mais amplo” – Peer Swinkels, CEO da Royal Swinkels.

Essa história Swinkels sugere três eixos de reflexões:
- Como salvaguardar o futuro de uma empresa familiar com séculos de história?
- Como alcançar resultados a curto prazo quando o foco está no longo prazo?
- Como garantir a inovação em uma empresa tão imersa em tradição?
É ambição pessoal de Peer deixar uma empresa saudável e circular para as futuras gerações. Para isso, o empreendedorismo circular conecta a estratégia empresarial ao compromisso com as futuras gerações, objetivando reduzir desperdícios e preservar o valor de matérias-primas, água, energia e materiais, tendo em perspectiva os impactos na cadeia de fornecimento.

Aquisição circular: buscar insumos e materiais mais sustentáveis, desde os ingredientes da cerveja aos recursos utilizados nas instalações.
Produção circular: reduzir o consumo de água, energia, emissões de transporte e geração de resíduos. A visão deve abranger toda a cadeia produtiva, não apenas a eficiência dentro de uma fábrica.
Reutilização de alta qualidade: reintegrar fluxos orgânicos residuais à cadeia, e reutilizar ou reciclar embalagens, máquinas e edifícios sempre que possível, preservando seu valor.
Confira o Anexo I – Governança, Estratégias e Políticas.
Notas:
(1) alódio franco, termo que designa uma propriedade inteiramente livre de foros, vínculos, pensões e ônus, sendo um título inalienável
(2) Bavaria, nome escolhido em homenagem ao estilo de produção bávaro, e não para enganar o consumidor sobre a sua origem geográfica. Em 1930, a empresa mudou sua razão social para Bavaria NV, o que suscitou a reação da Associação de Cervejeiros da Baviera (Bayerischer Brauerbund) contra a cervejaria holandesa, em uma das mais longas e famosas batalhas por marcas que se conhecem. Em 1993, a Associação de Cervejeiros da Baviera solicitou a proteção do termo Bayerisches Bier (Cerveja Bávara) à União Europeia, que concedeu oficialmente, em 2001, o estatuto IGP – Indicação Geográfica Protegida à Bayerisches Bier. Por lei, significava que apenas cervejas produzidas na Baviera, seguindo a Lei da Pureza Alemã de 1516, podiam usar nomes e termos da região da bávara e, consequentemente, os cervejeiros alemães processaram a empresa holandesa, exigindo que alterasse o nome de sua consagrada marca secular. O caso escalou até o TJUE – Tribunal de Justiça da União Europeia, que emitiu a decisão histórica, com base no Princípio de Anterioridade, a favor da cervejaria holandesa, que utilizava o nome de forma legítima e ininterrupta desde 1925, não podendo o selo alemão retroagir e extinguir uma marca consolidada anteriormente e de boa-fé. O TJUE decretou que ambos os direitos podiam coexistir no mercado europeu: a marca holandesa pôde manter o nome Bavaria, mencionando visivelmente a origem, incluindo a palavra “Holland” ou “Netherlands” nos rótulos, a fim de evitar ambiguidades com o produto alemão.

Anexo I – Família Swinkels – Governança, Estratégias e Políticas.
Governança
2 níveis de gestão, 6 divisões
Royal Swinkels, matriz do Grupo Swinkels, é propriedade da holding Ambrig B.V., cujas ações são detidas exclusivamente pela holding familiar Stichting Administratiekantoor Ambrig, uma fundação que controla e administra as participações e os interesses dos descendentes da família Swinkels.
A estrutura tem duas instâncias de gestão: um Conselho Fiscal e um Conselho Executivo formado pelo CEO e pelo CFO, sendo ambos membros da família Swinkels. Respondem a esses conselhos seis divisões do negócio: Swinkels, Holland Malt, Habesha, Cuba, Georgian Beer and Beverages Group e Swinkels Real Estate.
Sustentabilidade
Algumas Estratégias
- Parceria com agricultores exclusivos: fornecimento de cevada de diferentes origens, buscando qualidade e assegurando continuidade diante de variações climáticas e sazonais. A relação com os agricultores combina conhecimento técnico, acompanhamento de insumos e compromissos de longo prazo.
- Agricultura regenerativa e fornecimento responsável: apoio à rotação de culturas, ao cultivo orgânico e à redução de fertilizantes, com foco na saúde do solo, na biodiversidade e nas emissões. A cooperação com agricultores tem como princípio aproximar práticas agrícolas, qualidade e sustentabilidade da matéria-prima em toda a cadeia.
- Bomba de calor: transição para uma fonte de energia limpa, incluindo a recuperação do calor residual do processo de secagem e a utilização de bombas de calor para reaproveitamento. A instalação sem emissões fósseis entrou em operação em março de 2024.
- Cooperação com o Windpark Oostzeedijk: fornecimento de eletricidade renovável por meio da cooperação com o parque eólico Windpark Oostzeedijk.
- Real Estate: administração de atividades conectadas a bens imóveis e localidades pertencentes ao negócio. Sua inclusão na estrutura divisional mostra que a diversificação vai além de marcas de bebidas.
Políticas e Cultura Empresarial
- Mais inteligente a cada dia: visa à melhoria contínua dos processos operacionais e administrativos por meio de dados, informação, tecnologia e aprendizado. Tem como objetivo identificar tendências para embasar a tomada de decisões e o melhor uso do tempo e dos recursos.
- Cultura familiar vencedora: promove a colaboração, o pertencimento e o desenvolvimento de pessoas, preservando a mentalidade de família durante a expansão e o crescimento do negócio e oferecendo condições para o aprendizado e a participação das equipes.
- Empreendedorismo circular: visa à redução de desperdícios e à manutenção do valor dos recursos utilizados. Embora relacionadas, a circularidade e a redução de emissões não são indicadores equivalentes. O Índice Swinkels de Circularidade (SCI) acompanha o uso e a preservação de recursos, segundo o método da empresa.
Princípios Fundamentais
- Entenda antes de ser compreendido: ouvir, perguntar e considerar diferentes perspectivas.
- Juntos, vamos conquistar o mundo: agir com integridade, segurança e senso de pertencimento.
- Melhoramos a cada dia: oferecer clareza e estabelecer metas ambiciosas e realistas.
- Tome iniciativa e tenha conversas honestas: abordar questões necessárias, dar e buscar feedback.
- Abrace a mudança com uma mentalidade positiva e cheia de energia: enfrentar desafios e agir no interesse da empresa.
Ética e Responsabilidades
A empresa declara sua responsabilidade perante clientes, pessoas, parceiros e o planeta, bem como sua integridade, transparência e compromisso com a continuidade, nos seguintes termos:
- Cuidar de todos os nossos recursos é alcançar a meta de 100% do Índice de Circularidade Swinkels (SCI). Em 2025, o SCI de 65,2% mostra progresso, mas ainda não representa a circularidade integral.
- Incentivar o consumo responsável de álcool é reconhecer que bebidas alcoólicas não são apropriadas para todas as pessoas ou situações e contribuir para essa conscientização e para o consumo responsável.
- Criar um ambiente de trabalho melhor é promover condições de trabalho saudáveis e seguras para quem trabalha para a empresa ou com ela.
- Beneficiar a comunidade é participar de projetos estruturais de longo prazo com impacto nas comunidades próximas às operações.
- Fazer negócios de forma responsável é combinar espírito empreendedor com integridade, transparência e responsabilidade nos relacionamentos comerciais.
- Responsabilidade social corporativa é integrar segurança, fornecimento responsável e redução de impactos ambientais ao negócio principal, com visão de longo prazo.
É paixão, arte, criatividade, ciência e experiência unindo-se em um copo.
Fontes
Livros
- Mark H. Daniell e Sara S. Hamilton – Family Legacy and Leadership (John Wiley & Sons, 2010)
- William T. O’Hara – Centuries of Success (Adams Media, outubro 2003)
Sites
- www.royalswinkels.com
- www.bavaria.com
- https://www.businesswise.nl
- https://dutchindustry.org/
- www.wikipedia.org
- www.britannica.com
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